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Uma playlist de aquecimento para o show do jamaicano Horace Andy em SP

Ramiro Zwetsch

2029-05-20T19:12:04

29/05/2019 12h04

Entre as muitas vozes jamaicanas de identidade inconfundível, a de Horace Andy é uma das que mais tem profundidade. O cantor e compositor se apresenta em São Paulo no próximo sábado, dia 01 de junho, como atração da tradicional festa Jamboree. Ele canta escoltado pela banda brasileira Leões de Israel, já acostumada a acompanhar artistas da Jamaica que desembarcam por aqui. Com mais de 50 anos de carreira e aos 68 anos, Horace começou a fazer história a partir do começo dos anos 70 com uma sequência de álbuns inspirados lançados pela lendária gravadora Studio One. A partir dos anos 90, os holofotes se voltaram mais uma vez a ele pelas participações infalíveis nos álbuns da banda britânica de trip hop Massive Attack. Trata-se de uma lenda que subirá ao palco do Fabrique Club. A Radiola Urbana convidou o organizador da Jamboree, o DJ e pesquisador de música jamaicana Jurássico, para criar a playlist comentada abaixo para entrar no clima da apresentação. Ouça, leia e vá!

"Black Man's Country" (single, 1967)
Horace Andy tornou-se um ícone do reggae nos anos 70, mas sua trajetória na música começou ainda na adolescência. Com 16 anos ele gravou sua primeira música, um belo rocksteady arranjado por Phil Pratt e que já trazia uma mensagem de consciência negra – tema recorrente em toda sua carreira. Vale ressaltar que aqui Horace ainda usava seu sobrenome original, "Hinds", o mesmo de seu primo mais velho e também músico, Justin Hinds.

"Every Tongue Shall Tell" ("Skylarking", 1972)
Provavelmente a faixa mais poderosa do disco de estreia de Horace. Combinação perfeita entre um naipe de metais que fazem as vezes de refrão mais linha de baixo elétrico pesada e bateria peculiar para o período da gravação. Também conta com letra de destaque, "consciente" como diria o próprio Horace, que elencou essa música como a favorita de toda sua carreira.

"New Broom" (single,1973)
Seria essa uma luxuosa sobra de estúdio da sessão de "Skylarking"? Trata-se de uma das faixas mais cultuadas do cantor no período do inicio da década de 70. A atmosfera da música é construída a partir de uma guitarra solo que abre a faixa e ainda ganha destaque em solo. Um discreto eco na voz colabora com a aura mística da faixa.

"Roots of All Evil" ("Get Wise", 1975)
Música de inúmeras versões, é até difícil escolher a favorita. Eu fico com essa produção de Phill Pratt que traz uma pitada lisérgica, facilmente notada na introdução de piano, moog e baixo. Vale também destacar a bateria minimalista da faixa, um clássico do reggae music de todos os tempos!

"Get Wise" ("Get Wise", 1975)
Diferente de "Roots of All Evil", que consta no mesmo disco, essa faixa não tem muito experimentalismo. Pelo contrário, o peso do baixo hipnótico é a alma desse "reggaezão" pesado e classudo.

"Problems" (single, 1975)
Um dos grandes clássicos da discografia de Horace, sempre presente em seus shows, foi gravada com Leonard "Santic" Chin – produtor jamaicano que tornou-se reconhecido por ser um dos principais responsáveis pela criação do estilo lovers rock. Aqui, no entanto, a pegada é de um roots reggae pesado com letra que evoca a força interna de cada um contra problemas que mais remetem à depressão quando calmamente analisados – talvez reflexo dos períodos difíceis que os jamaicanos passavam naquele momento da história.

"Materialist" (single, 1977)
Uma bela fotografia sobre o apego material ante a pobreza jamaicana. O produtor Niney the Observer dá uma pitada de eco na guitarra de condução, o que é apenas um "taste" para o belíssimo dub que acompanha o disco original no lado b do compacto.

"Natty Dread a Weh She Want" ("Natty Dread a Weh She Want", 1978)
Faixa-título do disco produzido pelo também deejay, Tappa Zukie. Aliás, o time desse disco merece destaque: Sly e Robbie cuidam do baixo e bateria, Earl "China" Smith das guitarras, Deadly Headly Bennet e Vin Gordon dos metais, Ansel Collins do órgão, Scully da percussão, Gladstone Anderson do piano e King Jammy da mixagem. Dito isso, só resta escutar essa faixa e todo o álbum, maravilhoso.

"Zion Gate" (single, 1978)
Belíssima composição de Horace, que aqui passeia com seu mais típico flow – calmo e hipnótico. A linda sessão de arranjos merece destaque, metais acompanham toda a faixa e são chamados de tempos em tempos, quase como refrão. Piano e percussão que remetem ao nyabinghi completam a música que tem produção de Sly e Robbie.

"Africa Liberation" ("Pure Ranking", 1979)
Composição do próprio Horace, a letra trata sobre os problemas enfrentados pela África do Sul no fim da década de 70, incluindo menções sobre as tragédias no Soweto. Em um disco que tem uma pegada mais descontraída, essa faixa sai um pouco da atmosfera ragamuffin criada por Horace com ajuda de King Tubby, o produtor do disco.

"Ain't No Sunshine" ("Showcase", 1980)
Versão que não deve nada à original do soulman norte-americano Bill Withers nem à regravação também antológica de seu compatriota Ken Boothe.

"Cuss Cuss" ("Showcase", 1980)
Clássico jamaicano com inúmeras gravações inspiradas – a de Horace está no pódium entre uma das melhores.

"Spying Glass" ("Dancehall Style Album", 1982)
Do magistral álbum produzido por Lloyd Barnes em Nova Iorque e lançado pelo seu selo Wackies (um dos mais cultuados pelos amantes do lado underground do reggae). Talvez a faixa que melhor entregue todo o conceito criado para esse disco de atmosfera única e que é fonte clara de inspiração para grupos como Massive Attack.

"Girl is Mine" (single, 1984)
Em um mix de lovers rock e dancehall, Horace Andy paga tributo a Michael Jackson e bem pago.

"Man Next Door" ("Mezzanine", Massive Attack, 1998)
Horace é o único artista convidado que participou de todos discos da banda britânica Massive Attack. Aqui ele participa da recriação de uma faixa originalmente registrada pelo grupo jamaicano Paragons, em 1968, e que ele mesmo regravou em 1975.

Vai lá!

Horace Andy (com Leões de Israel)

Quando: sábado 1/6 (festa a partir das 23h, show às 1h30)

Onde: Fabrique Club – Rua Barra Funda, 1071

Quanto: R$ 60 (lote promocional online), R$ 80 (primeiro lote), R$ 100 (segundo lote) e R$ 120 (terceiro lote)

Sobre o autor

Ramiro Zwetsch é jornalista, DJ residente da festa Entrópica, sócio da Patuá Discos e criador do site Radiola Urbana. Foi editor-chefe dos programas "Manos e Minas" e "Metrópolis", repórter de música do Jornal da Tarde e colaborou para "Ilustrada", "Caderno 2", “Bravo!”, “Rolling Stone”, “Bizz”, “Carta Capital”, “Select” entre outros.

Sobre o blog

Divagações e reflexões sobre as maravilhas contemporâneas e pérolas negras da música Brasil adentro e mundo afora.