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King Jammy em SP e uma playlist pra entrar no clima

Ramiro Zwetsch

2025-07-20T18:12:26

25/07/2018 12h26

Existem infinitos músicos importantes. Inúmeros são influentes para as gerações seguintes. Muitos são ícones de um determinado gênero. Nem tantos assim são criadores de um novo estilo. O jamaicano King Jammy (ex-Prince Jammy) é um deles. Produtor do hit "Under Mi Sleng Teng" (cantado por Wayne Smith), ele deu o pontapé inicial para mais uma das muitas revoluções do reggae e praticamente inventou o que hoje se identifica como dancehall – uma evolução da música jamaicana dos anos 80 que, a grosso modo, se diferencia do reggae por ter uma instrumentação digital e vocais menos melódicos e mais próximos do estilo do rap.

E ele está entre nós: aos 70 anos, ele veio a São Paulo para um workshop (desde terça 24 até sexta 27, no Sesc 24 de Maio) e uma apresentação na festa Fresh! (sexta, a partir das 22h, na quadra dos Caprichosos do Piqueri). Ainda que tenha entrado pra história como um pioneiro do dancehall em 1985, Jammy iniciou sua trajetória no começo dos anos 60. Ele era dono de um dos soundsystems de Kingston, que promovia festas de rua na cidade, e também fazia manutenção de aparelhos de som para outros artistas. No começo dos anos 70, viveu no Canadá. De volta à ilha caribenha em 1976, trabalhou no estúdio de King Tubby (outra lenda!) e produziu importantes singles e álbuns na década de 70 – inclusive o primeiro da banda Black Uhuru. Na década de 80, criou seu próprio selo (Jammy's) e fomentou o dancehall com produções para Cocoa Tea, Johnny Osbourne, Junior Reid e muitos outros.

A Radiola Urbana convidou o time da festa Fresh! para criar uma playlist comentada e introdutória para quem não conhece o assunto – ou para quem já conhece entrar no clima da apresentação de sexta. Ouça e confira os comentários dos selectas DVBZ, Fepa, Magrão e Stranjah e da produtora do rolê, Lys Ventura. Som na caixa!

*a música jamaicana tem um vocabulário próprio e certos termos só se aplicam no caso do reggae. Segue um breve glossário:

DJ (ou Deejay): ao contrário do que acontece no resto do mundo, na Jamaica o Deejay é o cantor
Riddim: base instrumental, que pode ser reaproveitada em várias músicas
Selecta: o artista responsável por selecionar as músicas em uma festa – o seletor, chamado de DJ nos outros países
Soundsystem: na tradução literal, sistemas de som para festas de rua, com características específicas desenvolvidas pelos artistas jamaicanos. Exemplo: o grave sempre tem que bater muito forte

1 – Bounty Killer – "Ancient Days Killing"
"Essa música é um bom exemplo de uma grande característica do dancehall jamaicano: as músicas de provocação e desrespeito. Nesse caso, o DJ Bounty Killer desliza no "Things & Times" riddim mandando um recado para seu rival Supercat." (Fepa)

2 – Garnett Silk – "Lord Watch Over Our Shoulders"
"A morte precoce de Garnett Silk em 1994, no auge de sua carreira, transformou o cantor em uma verdadeira lenda da música jamaicana. Ele foi um dos responsáveis pelo renascimento do reggae roots e consciente nos anos 90 e essa música mostra bem o motivo." (Fepa)

3 – Frankie Paul – "I Know the Score"
"Dono de uma das vozes mais lindas da Jamaica, o inesquecível Frankie Paul foi responsável por hits e mais hits ao lado de Jammy's. Frankie gravou centenas de discos e conseguiu manter-se no topo por toda sua longa carreira. Não é fácil ouvir algo melhor que isso." (Fepa)

4 – Junior Reid – "Dreadful Day"
"Aqui temos um dos maiores sucessos do hip hop norte-americano dos anos 1990 construído sobre uma música que Jammy's produziu com o cantor Junior Reid (Black Uhuru) no início dos anos 80. Poor Righteous Teachers são um ícone do rap consciente e sempre beberam da fonte da música jamaicana." (Magrão)

5 – Cornell Campbell – "Nothing Don't Come Easy"
"Uma das características das produções de Jammy's sempre foi resgatar artistas da velha guarda jamaicana e lançá-los cantando sobre suas produções de reggae digital. Este é um ótimo exemplo, com o veterano Cornell cantando lindamente numa base feita pras pistas de dança." (Magrão)

6 – Wayne Smith – "Under Mi Sleng Teng"
"Under Mi Sleng Teng" é um dos maiores divisores de água da música jamaicana. É a faixa que colocou Jammy's definitivamente entre os maiores nomes do reggae, ao produzir pela primeira vez uma música de forma inteiramente digital." (Magrão)

7 – Black Uhuru – "I Love King Selassie"
"Antes de seus experimentos que levaram a criação do reggae digital no meio dos anos 80, King Jammy (ou Prince Jammy, ainda antes de sua coroação) trabalhou em inúmeras produções clássicas de reggae roots. O álbum "Black Sound of Freedom" (1981), do supergrupo Black Uhuru, traz hits como este na mais plena perfeição sônica do reggae." (DVBZ)

8 – Johnny Osbourne – "In The Area (What a La La)"
"Um dos artistas que mais colaborou com King Jammy foi Johnny Osbourne. Dentre os inúmeros hits que a dupla emplacou nas pistas está "In The Area (What a La La)", de 1984, na qual Johnny canta sobre o poder do soundsystem do rei do dancehall. A base musical de Jammy é uma releitura do riddim "Stalag" (que ficou famoso dois anos antes com Sister Nancy em "Bam Bam")." (DVBZ)

9 – Cocoa Tea – "Young Lover"
"Cocoa Tea é sem dúvida um dos artistas mais prolíficos da era digital do reggae. Em 1987, ele e King Jammy colaboraram juntos no clássico álbum "Come Again", de onde saiu uma de suas músicas mais famosas, "Young Lover", na qual Cocoa canta maravilhosamente os lamentos de um amor impossível em cima da não menos maravilhosa base musical de Jammy." (DVBZ)

10 – Cocoa Tea – "Children Of The Ghetto"
"Um dos meus riddims preferidos. Essa música retrata uma situação real do que acontecia na ilha naquele momento em 1985, quando os jovens iam para o dancehall (dança de salão) ver os soundsystems tocarem… Ele fala em como é notável os jovens indo para os bailes e inventando inúmeros tipos de danças." (Stranjah)

11 – Admiral Bailey – "One Scotch"
"Eu me lembro a primeira vez que ouvi este som. E até hoje, cada vez em que é soltada na pista de dança, é uma música que leva o público ao delírio, causa naturalmente uma vibe inexplicável que faz toda a diferença na dança de salão." (Stranjah)

12 – Prince Junior – "Crucial Boy"
"Além da voz impecável do Prince Junior, nesta música percebemos o quanto o Jammy's domina a era digital com este riddim. Minha preferida, com esta sonoridade de 1986 saindo direto dos drum machines digitais, no talo!" (Stranjah)

13 – Wayne Smith – "My Lord My God"
"Um dos cantores pioneiros do dancehall digital e dono de uma das melhores vozes da ilha. Quando ouvi essa música pela primeira vez, foi impossível não me apaixonar pelo vocal doce da introdução, complementando a batida digital. Além de ser uma letra total de empoderamento: 'não posso esquecer minha herança e minha história, pois eu não posso esconder minha verdadeira identidade, oh não, eu acho que não!'". (Lys)

14 – Junnie Ranks – "Tell You What Police Can Do"
"Um dos meus riddims preferidos, tem muito suingue e, nesta música, Junnie Ranks – uma conhecida DJ mulher – responde ao grande sucesso de Echo Minott "What the Hell", que, de um ponto de vista machista, questionava uma mulher, que chamava a polícia após ter sido agredida. Junnie usa a produção de Jammy's para dar sua versão sobre os fatos." (Lys)

15 – Hortense Ellis – "Jah Mysterious World"
'"Deep roots que enaltece a grandeza do universo e as criações de Jah. O vocal doce de Hortense Ellis na década de 70 abrilhanta a produção, e o lado B que traz a versão dub por King Jammy vem com uma profundidade linda, com tambores. Meditation style!" (Lys)

Vai lá:
Sleng Teng: fundamentos da era digital jamaicana – workshop com King Jammy
Quando: de 24 a 27 de julho, das 18h30 às 21h
Onde: Sesc 24 de Maio – R. 24 de Maio, 109
Quanto: R$ 12,00 (comerciário), R$ 25,00 (meia-entrada), R$ 50,00 (inteira)

Fresh! apresenta King Jammy's e Terremoto Sound System
Quando: 27 de julho, a partir das 22h
Onde: Quadra dos Caprichosos do Piqueri – R. Coronel Bento Bicudo, 761
Quanto: R$ 35,00 (lote online), R$ 50,00 (na porta)

Sobre o autor

Ramiro Zwetsch é jornalista, DJ residente da festa Entrópica, sócio da Patuá Discos e criador do site Radiola Urbana. Foi editor-chefe dos programas "Manos e Minas" e "Metrópolis", repórter de música do Jornal da Tarde e colaborou para "Ilustrada", "Caderno 2", “Bravo!”, “Rolling Stone”, “Bizz”, “Carta Capital”, “Select” entre outros.

Sobre o blog

Divagações e reflexões sobre as maravilhas contemporâneas e pérolas negras da música Brasil adentro e mundo afora.