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Virada Cultural: Seun Kuti tem de ser uma prioridade em sua agenda

Ramiro Zwetsch

15/05/2019 09h25

Um velho dilema da Virada Cultural em São Paulo é organizar a agenda para aproveitar o maior número possível de atrações de sua recheada programação. Para a Radiola Urbana, neste ano, tudo gira em torno do show do nigeriano Seun Kuti (domingo 19/05, às 3h da madrugada, no Palco Anhangabaú). Nossa sugestão é se garantir nessa e depois planejar o resto. O músico esteve no Brasil em quatro oportunidades já e, em duas delas, a apresentação aconteceu ao mesmo molde à deste ano: em eventos gratuitos, no centro de São Paulo (na própria Virada Cultural, em 2012, e no Mês da Cultura Independente, em 2014). Em ambas oportunidades, foi emocionante observar a devoção da comunidade nigeriana da cidade, que se garantiu na frente do palco e fez um espetáculo à parte. Já no ano passado, ele se apresentou no Nublu Jazz Festival, exatamente no dia seguinte ao assassinato de Marielle Franco e iniciou o show com a projeção de uma fotografia da vereadora.

A arte é uma das curas que temos para domar essa angústia de muitos de nós diante de um projeto político que tem como meta promover a barbárie e sabotar o pensamento crítico. A história de Seun traz essa força no sangue. Ele é um dos filhos de Fela Kuti, o criador do afrobeat e incansável ativista pelo pan-africanismo e contra o autoritarismo do estado. Falamos dele aqui no blog duas vezes recentemente. Criamos uma playlist comentada com 20 faixas na semana de seu aniversário de 80 anos (em 15 de outubro de 2018, justamente entre o primeiro e o segundo turno das desgastantes últimas eleições no Brasil) e entrevistamos o cineasta Joel Zito Araújo em abril deste ano — ele é diretor do documentário "Meu Amigo Fela", exibido no festival É Tudo Verdade e com estreia em circuito nacional prevista para o segundo semestre.

A obra de Fela e o legado que Seun carrega são, definitivamente, uma inspiração para a necessária resistência que os atuais tempos exigem. Em entrevista ao blog em 2014, Seun falou sobre sua preocupação com as intervenções das corporações ocidentais na Nigéria. "Os que governam o país são negros, mas não são africanos. Eles não representam o interesse do povo africano. Basicamente são as corporações que se dizem preocupadas com a necessidade de se haver investimentos na África, mas o que eu vejo é corrupção e poluição do meio ambiente. Nós não vemos os benefícios desses investimentos estrangeiros na África. Talvez 2% dos africanos vejam", disse. "Quanto mais 'auxílio' a África vem conseguindo, mais pobreza está chegando ao continente". Corta cena, muda de continente, avança cinco anos na linha do tempo e surge a lembrança de um dos trechos de uma entrevista histórica deste ano: "Nunca vi um presidente bater continência pra bandeira americana. (…) Alguém acha que os Estados Unidos vão favorecer o Brasil?".

Em outro trecho de nossa conversa com o nigeriano, ele falou da necessidade de se conectar ao vivo, para além das redes sociais. "O cenário das redes sociais no meu país é realmente perverso (…) porque é manipulada por quem tem mais dinheiro. (…) As organizações não podem depender das mídias sociais — acessar um link e dizer "sim", assinar uma petição online. Não. As pessoas precisam sentar, conversar por horas, compartilhar ideias e chegar às soluções." Aí a gente se lembra da máquina das fake news que, comprovadamente, contribuiu para a eleição do nosso atual presidente.

Seun Kuti, é importante frisar, faz jus ao discurso no palco e sua performance tem, de fato, o poder de um ato político. Acompanhado da Egypt 80, a última banda de Fela (morto em 1997), ele comanda um transe que combina as letras de protesto com uma incomparável potência instrumental — baseada em um balanço repetitivo (de baixo, percussão, guitarra e bateria) entrecortado pela fúria dos ataques de metais. A catarse se multiplica com a sempre impressionante desenvoltura das dançarinas (também backing vocals) que o acompanham e o momento em que elas vão à frente do palco para mostrar o milagre dos movimentos de seus corpos é de tirar o fôlego. Ele tem cinco discos lançados desde 2008 e "Black Times" (do ano passado) é o mais recente. Vai na fé!

Vai lá:

Seun Kuti na Virada Cultural

Quando: domingo 19/05, às 3h

Onde: Palco Anhagabaú

Quanto: de graça

Sobre o autor

Ramiro Zwetsch é jornalista, DJ residente da festa Entrópica, sócio da Patuá Discos e criador do site Radiola Urbana. Foi editor-chefe dos programas "Manos e Minas" e "Metrópolis", repórter de música do Jornal da Tarde e colaborou para "Ilustrada", "Caderno 2", “Bravo!”, “Rolling Stone”, “Bizz”, “Carta Capital”, “Select” entre outros.

Sobre o blog

Divagações e reflexões sobre as maravilhas contemporâneas e pérolas negras da música Brasil adentro e mundo afora.