Radiola Urbana http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br Divagações e reflexões sobre as maravilhas contemporâneas e pérolas negras da música Brasil adentro e mundo afora Thu, 13 Jun 2019 13:47:16 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 “Soundsystem – A Voz da Quebrada” e mais 5 filmes pra ver no In-Edit Brasil http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/2019/06/12/soundsystem-a-voz-da-quebrada-e-mais-5-filmes-pra-ver-no-in-edit-brasil/ http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/2019/06/12/soundsystem-a-voz-da-quebrada-e-mais-5-filmes-pra-ver-no-in-edit-brasil/#respond Wed, 12 Jun 2019 19:06:52 +0000 http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/?p=415

A Radiola Urbana festeja sempre que começa mais uma edição do festival de documentários musicais In-Edit Brasil! A 11ª começa justamente hoje (quarta, 12/06) com mais de 57 filmes e já estamos naquela ansiedade pra organizar a agenda pra assistir o máximo de sessões possível.

Uma dica é “Soundsytem – A Voz da Quebrada”, que retrata o movimento de sistemas de som e festas de música jamaicana em São Paulo. A direção é de Fernando Augusto Silva. “Depois que você se envolve com essa parada, fica difícil sair. Desde que tive meu primeiro contato em meados de 2005, me apaixonei. Eu estava começando a trabalhar com cinema e juntei o útil ao agradável”, explica. “O reggae e a música negra têm uma força que vai além do nosso entendimento. O que faltava para nós era o acesso. É uma cena cultural muito rica e o formato de expressão dos soundsystems coloca artista e público no mesmo patamar – o ambiente é acolhedor para todos”. O doc traz depoimentos de gente ativa na cena paulistana (como os DJs Magrão, Yellow P, Lys Ventura, Otávio Rodrigues e Jai Mahal) e artistas jamaicanos como U-Brown e Lone Ranger.

Escolhemos mais cinco filmes pra ver sem falta:

1) “Meu Amigo Fela”, documentário sobre Fela Kuti, com entrevistas conduzidas por Carlos Moore e direção de Joel Zito Araújo. Este já foi assunto aqui no blog, quando entrevistamos o cineasta, na ocasião da exibição no festival É Tudo Verdade.

2) “Clementina”, sobre a rainha do samba Clementina de Jesus, com direção de Ana Rieper – vencedora do In-Edit Brasil 2012 com o filme “Vou Rifar Meu Coração”.

3) “Blue Note Story – It Must Schwing”, que conta a história da gravadora Blue Note, uma grife do jazz. Dirigido por Eric Friedler.

4) “Rudeboy: The Story of Trojan Records”, filme que aborda a trajetória de uma das gravadoras mais importantes para o reggae. Direção: Nicolas Jack Davies.

5) “Miles Davis – Birth of Cool”, sobre o maior revolucionário do jazz, com direção de Stanley Nelson.

Confira os horários das sessões no site oficial do evento: in-editbrasil

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Nomade Orquestra traz quatro vozes para seu som instrumental. Veja teaser! http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/2019/06/05/nomade-orquestra-traz-quatro-vozes-para-seu-som-instrumental-veja-teaser/ http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/2019/06/05/nomade-orquestra-traz-quatro-vozes-para-seu-som-instrumental-veja-teaser/#respond Wed, 05 Jun 2019 14:57:12 +0000 http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/?p=411

A natureza nômade é se movimentar constantemente. O combo do ABC Paulista Nomade Orquestra segue esse instinto e não para quieto na busca de uma permanente reinvenção de sua musicalidade. No próximo dia 14, a banda lança seu terceiro disco, “Vox Populi”, e envereda por um caminho até então inédito em sua estrada fonográfica: de trabalhar com vocalistas convidados. Seus dois álbuns anteriores – “Nomade Orquestra” (2014) e “EntreMundos” (2017) – são instrumentais e revelam uma potência rara e autoral na fusão de influências. O jazz e funk norte-americanos colidem com toda diversidade rítmica brasileira, o choque abre as vísceras de sua estética e autópsia desvenda ainda referências caribenhas e africanas.

“Vox Populi” traz as participações de Edgar, Juçara Marçal, Russo Passapusso e Siba. A Radiola Urbana divulga com exclusividade o teaser que traz um aperitivo da colaboração com a cantora do Metá Metá. Algo que logo chama atenção é o mergulho dela em duas composições, algo que ela já vem explorando em trabalhos anteriores e, ao que parece, tende a se aprofundar. “Quis fazer duas canções bem diferentes uma da outra. Na primeira, “Eró Iroko’, surgiu logo a ideia de compor uma canção exaltando Iroko – como se fosse um ponto, tendo uma estrutura mais circular, saudando o orixá”, diz a artista. “Na segunda, ‘Poeta Penso’, a ideia era brincar no registro meio falado / meio cantado. Daí a letra também seguiu mais lúdica, exercitando a desconstrução das palavras e a desobstrução do ‘eu’ que fala na canção.”

O baixista Ruy Rascassi frisa que “no momento atual, a palavra se faz necessária”. “Diante da turbulência que vivemos no Brasil, a musica é a arma e palavra é a bala. É necessário se aproximar das pessoas que estão ao seu redor, dizer o simples e o básico da vida que aparentemente estão se perdendo.” “A música instrumental é e sempre será a origem e o viés da Nomade Orquestra. Nos relacionamos com essa linguagem universal nos últimos anos, viajando o Brasil e a Europa, e as experiências que vivenciamos foram incríveis – desde pessoas que se conectaram tão fortemente com a música a ponto de se livrarem de uma depressão ou mesmo gente que disse ter tido uma viagem psicodélica sem estar sob efeito de nenhuma substância”, explica o músico. “Mas, nos últimos anos, pensamos na real possibilidade de transgredir, ultrapassar a barreira da sensibilidade e percepção para chegar ao significado e comunicação direta com uma experiência completa. E isso só seria capaz através da voz.”

A banda chegou lá. “Vox Populi” é um discão, que será lembrado como um dos melhores da música brasileira em 2019. Aguarde e confie.

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Uma playlist de aquecimento para o show do jamaicano Horace Andy em SP http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/2019/05/29/uma-playlist-de-aquecimento-para-o-show-do-jamaicano-horace-andy-em-sp/ http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/2019/05/29/uma-playlist-de-aquecimento-para-o-show-do-jamaicano-horace-andy-em-sp/#respond Wed, 29 May 2019 15:04:14 +0000 http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/?p=407 Entre as muitas vozes jamaicanas de identidade inconfundível, a de Horace Andy é uma das que mais tem profundidade. O cantor e compositor se apresenta em São Paulo no próximo sábado, dia 01 de junho, como atração da tradicional festa Jamboree. Ele canta escoltado pela banda brasileira Leões de Israel, já acostumada a acompanhar artistas da Jamaica que desembarcam por aqui. Com mais de 50 anos de carreira e aos 68 anos, Horace começou a fazer história a partir do começo dos anos 70 com uma sequência de álbuns inspirados lançados pela lendária gravadora Studio One. A partir dos anos 90, os holofotes se voltaram mais uma vez a ele pelas participações infalíveis nos álbuns da banda britânica de trip hop Massive Attack. Trata-se de uma lenda que subirá ao palco do Fabrique Club. A Radiola Urbana convidou o organizador da Jamboree, o DJ e pesquisador de música jamaicana Jurássico, para criar a playlist comentada abaixo para entrar no clima da apresentação. Ouça, leia e vá!

“Black Man’s Country” (single, 1967)
Horace Andy tornou-se um ícone do reggae nos anos 70, mas sua trajetória na música começou ainda na adolescência. Com 16 anos ele gravou sua primeira música, um belo rocksteady arranjado por Phil Pratt e que já trazia uma mensagem de consciência negra – tema recorrente em toda sua carreira. Vale ressaltar que aqui Horace ainda usava seu sobrenome original, “Hinds”, o mesmo de seu primo mais velho e também músico, Justin Hinds.

“Every Tongue Shall Tell” (“Skylarking”, 1972)
Provavelmente a faixa mais poderosa do disco de estreia de Horace. Combinação perfeita entre um naipe de metais que fazem as vezes de refrão mais linha de baixo elétrico pesada e bateria peculiar para o período da gravação. Também conta com letra de destaque, “consciente” como diria o próprio Horace, que elencou essa música como a favorita de toda sua carreira.

“New Broom” (single,1973)
Seria essa uma luxuosa sobra de estúdio da sessão de “Skylarking”? Trata-se de uma das faixas mais cultuadas do cantor no período do inicio da década de 70. A atmosfera da música é construída a partir de uma guitarra solo que abre a faixa e ainda ganha destaque em solo. Um discreto eco na voz colabora com a aura mística da faixa.

“Roots of All Evil” (“Get Wise”, 1975)
Música de inúmeras versões, é até difícil escolher a favorita. Eu fico com essa produção de Phill Pratt que traz uma pitada lisérgica, facilmente notada na introdução de piano, moog e baixo. Vale também destacar a bateria minimalista da faixa, um clássico do reggae music de todos os tempos!

“Get Wise” (“Get Wise”, 1975)
Diferente de “Roots of All Evil”, que consta no mesmo disco, essa faixa não tem muito experimentalismo. Pelo contrário, o peso do baixo hipnótico é a alma desse “reggaezão” pesado e classudo.

“Problems” (single, 1975)
Um dos grandes clássicos da discografia de Horace, sempre presente em seus shows, foi gravada com Leonard “Santic” Chin – produtor jamaicano que tornou-se reconhecido por ser um dos principais responsáveis pela criação do estilo lovers rock. Aqui, no entanto, a pegada é de um roots reggae pesado com letra que evoca a força interna de cada um contra problemas que mais remetem à depressão quando calmamente analisados – talvez reflexo dos períodos difíceis que os jamaicanos passavam naquele momento da história.

“Materialist” (single, 1977)
Uma bela fotografia sobre o apego material ante a pobreza jamaicana. O produtor Niney the Observer dá uma pitada de eco na guitarra de condução, o que é apenas um “taste” para o belíssimo dub que acompanha o disco original no lado b do compacto.

“Natty Dread a Weh She Want” (“Natty Dread a Weh She Want”, 1978)
Faixa-título do disco produzido pelo também deejay, Tappa Zukie. Aliás, o time desse disco merece destaque: Sly e Robbie cuidam do baixo e bateria, Earl “China” Smith das guitarras, Deadly Headly Bennet e Vin Gordon dos metais, Ansel Collins do órgão, Scully da percussão, Gladstone Anderson do piano e King Jammy da mixagem. Dito isso, só resta escutar essa faixa e todo o álbum, maravilhoso.

“Zion Gate” (single, 1978)
Belíssima composição de Horace, que aqui passeia com seu mais típico flow – calmo e hipnótico. A linda sessão de arranjos merece destaque, metais acompanham toda a faixa e são chamados de tempos em tempos, quase como refrão. Piano e percussão que remetem ao nyabinghi completam a música que tem produção de Sly e Robbie.

“Africa Liberation” (“Pure Ranking”, 1979)
Composição do próprio Horace, a letra trata sobre os problemas enfrentados pela África do Sul no fim da década de 70, incluindo menções sobre as tragédias no Soweto. Em um disco que tem uma pegada mais descontraída, essa faixa sai um pouco da atmosfera ragamuffin criada por Horace com ajuda de King Tubby, o produtor do disco.

“Ain’t No Sunshine” (“Showcase”, 1980)
Versão que não deve nada à original do soulman norte-americano Bill Withers nem à regravação também antológica de seu compatriota Ken Boothe.

“Cuss Cuss” (“Showcase”, 1980)
Clássico jamaicano com inúmeras gravações inspiradas – a de Horace está no pódium entre uma das melhores.

“Spying Glass” (“Dancehall Style Album”, 1982)
Do magistral álbum produzido por Lloyd Barnes em Nova Iorque e lançado pelo seu selo Wackies (um dos mais cultuados pelos amantes do lado underground do reggae). Talvez a faixa que melhor entregue todo o conceito criado para esse disco de atmosfera única e que é fonte clara de inspiração para grupos como Massive Attack.

“Girl is Mine” (single, 1984)
Em um mix de lovers rock e dancehall, Horace Andy paga tributo a Michael Jackson e bem pago.

“Man Next Door” (“Mezzanine”, Massive Attack, 1998)
Horace é o único artista convidado que participou de todos discos da banda britânica Massive Attack. Aqui ele participa da recriação de uma faixa originalmente registrada pelo grupo jamaicano Paragons, em 1968, e que ele mesmo regravou em 1975.

Vai lá!

Horace Andy (com Leões de Israel)

Quando: sábado 1/6 (festa a partir das 23h, show às 1h30)

Onde: Fabrique Club – Rua Barra Funda, 1071

Quanto: R$ 60 (lote promocional online), R$ 80 (primeiro lote), R$ 100 (segundo lote) e R$ 120 (terceiro lote)

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Z’África lança disco de 2002 em vinil e obra soa assustadoramente atual http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/2019/05/22/zafrica-lanca-disco-de-2002-em-vinil-e-obra-soa-assustadoramente-atual/ http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/2019/05/22/zafrica-lanca-disco-de-2002-em-vinil-e-obra-soa-assustadoramente-atual/#respond Wed, 22 May 2019 18:59:29 +0000 http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/?p=399 Rap é resistência. Em tempos em que o governo se concentra em promover cortes na educação e facilitar o acesso às armas, é sempre bom saudar os clássicos do hip hop brasileiro que abriram muitas mentes para reflexão em torno da ancestralidade africana e as raízes do racismo estrutural que contaminam a sociedade. “Antigamente Quilombos, Hoje Periferia”, disco lançado em 2002 pelo Z’África Brasil, é uma dessas obras que fizeram história e hoje soam assustadoramente atuais. O grupo se apresenta nesse sábado no Sesc Pompeia, em São Paulo, para celebrar o lançamento do vinil do trabalho (que sai pela AMM Recs em parceria com a Vinil Brasil). Radiola Urbana trocou uma ideia com os MC’s Gaspar, Funk Buia, Pitchô e o DJ Tano. Os três primeiros fazem parte da formação original e o último está no lugar que era do DJ Meio Quilo – que também participa do show. Thaíde, Kamau, Lino Krizz e Nalla são convidados da celebração.

Vocês acreditam que o título “Antigamente Quilombos, Hoje Periferia” se tornou ainda mais atual no Brasil de 2019?
Funk Buia –
Na verdade, é um título atemporal. Não tem época. Sempre lembraremos da caminhada que construiu o chão pra gente estar aqui hoje.
Gaspar – Tem uma geração que viveu a época que a gente lançou o disco e outra, de 2002 pra cá, que não conhece esse trabalho. Ao longo desses anos, o trabalho se espalhou por todos os lugares. Ele está nas universidades, nos livros, nas escolas, nos trabalhos de diversos movimentos espalhados pelo Brasil. É um trabalho que contribuiu muito no contexto histórico. Mas, eu concordo com o Buia, é um trabalho atemporal mesmo. Os assuntos que são abordados são pertinentes nos dias de hoje também: ancestralidade africana, diferença social, racismo e as raízes do povo periférico que vêm do quilombo e das aldeias indígenas. É um disco que representa um momento da nossa vida, a gente tinha que colocar esse trabalho pra fora, com todas as contestações da época, que nos dias de hoje não mudaram muito. Tem músicas de contexto histórico como “O Rei Zumbi”, que na época tinha uma luta de 300 anos para transformar o dia 20 de novembro (da morte de Zumbi) em feriado. É uma data histórica para o povo afro-brasileiro. É um disco que traz bastante consciência pra quem quer conhecer a verdadeira história do Brasil.

Um dos pontos do discurso do disco é a questão do racismo. O presidente, recentemente, deu uma declaração dizendo que o racismo é uma coisa rara no Brasil. Vocês acham que de 2002 pra cá, essa discussão evoluiu ou regrediu?
Gaspar – Os racistas mostram mais a cara, hoje em dia. É um vírus, uma doença estrutural. A sociedade brasileira construída nesse sistema colonial é racista. Esse racismo é institucional e estrutural. Tivemos alguns avanços em termos de leis, mas a gente regride totalmente quando elege um presidente como esse, que não tem consciência nenhuma, não tem visão de mundo e não conhece o Brasil por dentro. Basta lembrar como os europeus trataram os indígenas, como se eles não fossem daqui, sendo que são os verdadeiros povos originários brasileiros.
Funk Buia – Você liga a televisão e o padrão que existe é deles, o que tem de preto é como se fosse uma cota. Existe racismo sim e é pesado. Se a televisão, que atinge milhões de brasileiros, não mostra a cara do povo que dá essa audiência, ela é racista pra caramba. No poder, não tem gente de raiz preta ou indígena. Não existe. Nem o pobre está lá representado.
Gaspar – A televisão se torna racista pelos padrões que eles estipulam. A gente está no país que, segundo o IBGE, 60% é afrodescendente – fora os misturados. Nós somos latinos e não existe essa consciência. Pensam que estamos na Europa. O país é afrodescendente e indígena em sua maioria. Eles impõe padrões europeus distantes do que é o povo. A gente não se vê na televisão e quando colocam algumas pessoas lá é pra bater essa tal da cota. O lance das cotas sempre existiu. Todas as etnias que vieram pro Brasil tiveram cotas. Os europeus tiveram cotas. Os militares receberam cotas. Os japoneses receberam cotas. Todos tiveram, menos os indígenas e os africanos. Quando a gente luta por nosso povo nas universidades, as pessoas são contra as cotas. Os militares foram os primeiros a receber cotas. Quando eles vieram da Europa, o governo fez tratados que viabilizaram pedaços de terra, empréstimos em banco, conseguiram cotas pros filhos estudarem nas universidades… Quando nosso povo periférico vai lutar por isso, eles acham que é esmola ou migalha. A universidade deveria ser pra todos. Mas no nosso país, o poder do capital segrega tudo.

O rap é, naturalmente, uma ferramenta de conscientização e contestação. Como ele pode contribuir pra que a gente avance nessa discussão?
Gaspar –
O rap é uma música que faz as pessoas pensarem. A grande indústria promove a música da alienação, que é pras pessoas não pensarem. Quer ser feliz no Brasil, não pense. Você apenas segue as regras preestabelecidas. O rap coloca o dedo na ferida. Mas isso também não é uma regra: o rap te dá liberdade pra falar de amor, falar de tudo.
Funk Buia – A base mesmo é fazer pensar, irmão. A música que mexe com a sua cabeça tem o poder de transformar, sabe? Se ela te faz refletir, alguma coisa vai mudar. O papel do rap é mexer com a mente.
Gaspar – Não existe tema. “O rap tem que falar de periferia, tem que ser do gueto…”. Não existe tema pro rap, é ritmo e poesia e você se expressa da maneira como você se sente melhor. Não tem limite. E falar de amor é uma forma de fazer a revolução também.
Pitchô – Mas pode ter certeza que o Z’África sempre vai ter uma música que vai falar sobre esses temas que estão na base do “Antigamente Quilombos, Hoje Periferia”. Ou do racismo, ou da violência… Faz parte da nossa vivência, onde a gente mora, com quem a gente anda… Isso nunca vai sair do nosso repertório.
Gaspar – A gente canta o que a gente vive. Isso é o mais importante. Musicalmente, a nossa visão é mais ampla e não se restringe ao estilo rap. O nosso jeito de cantar é baseado na cultura do MC e do DJ. Mas a nossa forma de fazer música tem muita referência do reggae, do ragga, do samba, da embolada, do côco, do baião, do repente, do maracatu, da literatura de cordel, da umbanda… A gente tem muito disso e tenta colocar isso nas músicas.

A letra da música “Antigamente Quilombos, Hoje Periferia” questiona justamente o abastecimento de armas na periferia. Como vocês acham que esse decreto que facilita o acesso às armas vai bater na quebrada?
Funk Buia – Papo reto? Só tem louco, tio! Você vai jogar uma pá de revólver na mão de um monte de cara que não tem consciência? A primeira coisa que a gente deveria fazer é investir justamente onde ele está tirando o dinheiro, que é na educação. Educação, cultura e esporte formam o cidadão. Esse decreto é um sinal de que ele (o presidente) deve fechar com a (fabricante de armas) Taurus, deve estar ganhando um dinheiro pra deixar esse mercado crescer no Brasil.
Gaspar – Quem está armado no Brasil? É a elite burguesa e os militares. Eles conseguem pagar R$ 5 mil pra tirar um porte, comprar 90 cartuchos. Quem da periferia que vai comprar arma com 90 cartuchos? R$ 5 mil é só pra tirar o porte, fora comprar a arma… Os militares entraram no poder em 1964, saíram em 1988 e esperaram 30 anos pra voltar. Todo mundo sabe que eles enriqueceram no Brasil durante a ditadura e vão tentar enriquecer de novo agora em quatro anos. Por que o Eduardo Bolsonaro está preocupado com arma nuclear no Brasil? Todo mundo sabe que quem financia as guerras está envolvido com petróleo e tráfico de armas. Quem está armado são as facções, as milícias, a burguesia e os militares. Tem uma frase do B-Boy Banks que faz parte da nossa vida hoje: “a nossa luta nas quebradas é para que os livros cheguem antes das armas”. Na quebrada, ninguém gosta de polícia, porque quando eles vão lá, eles esculacham. Pagar um advogado na periferia, todo mundo sabe que é caro. Nosso povo também não é acostumado a fazer tratamento psicológico. A opressão policial, em poucos meses de novo governo, a gente já sente na quebrada. E agora tem essa de excludente de ilicitude. Os caras já matavam sem perguntar, agora eles têm o aval. Eles têm o direito de matar e ainda são condecorados. Já faziam isso, mas agora está no papel. O povo “de bem” pode se proteger. Mas o povo de bem é o nosso povo. Eles são o “povo de bens”. Essa é a diferença.

Então dá pra dizer que eu poucos meses desse novo governo, a quebrada já sentiu a diferença?
Gaspar – Com certeza. Até a guarda municipal está matando.
Pitchô – Como você para um carro e dá 80 tiros em uma família inocente?
Gaspar – Esse é o Brasil: é oito ou 80.

Qual é o significado de lançar esse disco em vinil 17 anos depois?
Pitchô –
É um sonho. A gente sempre quis lançar em vinil. É o nosso primeiro disco. Todo mundo que participou e trabalhou nesse disco está aí. Estão vivos, estão bem, vão participar com a gente no show de lançamento. É um prêmio mesmo. Quando a gente começou, a gente nem sabia que ia dar nisso.
Gaspar – É importante falar que nós somos amantes do vinil, a gente vive essa cultura.
DJ Tano – De cinco discos gravados pelo Z’África, esse é o que mais repercutiu. A partir de 10 de junho, vai ser distribuído entre as lojas. Teremos venda física lá no show e já está rolando pré-venda no site da banda e em outros sites parceiros. Os primeiros 100 que estão na pré-venda saíram com uma série limitada, com a cor translúcida e umas manchas vermelhas como se fosse de sangue. Os outros são inteiramente vermelhos.

E o vinil faz parte das origens da cultura hip hop. Como é pra uma banda importante do rap nacional finalmente lançar seu primeiro vinil?
DJ Tano – É um registro fundamental, porque a maioria dos grandes grupos de rap já tem vinil prensado. Agora pretendemos lançar os outros também.
Funk Buia – E tem vários DJs que só tocam com vinil, né?
DJ Tano – Tem DJs que mantém essa raiz, né? O pessoal da Discopédia, por exemplo, toca só com vinil. Então tá aí o disco do Z’África pra entrar no repertório dos caras também.

Qual é a importância do disco na trajetória do Z’África?
Pitchô – O processo foi muito especial. Aprendemos muita coisa. Ficamos muito tempo trancado no estúdio, ouvindo muita música. Tinha muito cara bom envolvido: Érico Theobaldo, Théo Werneck, André Abujamra… Esses caras estavam tudo com a gente. Quer dizer: a gente estava com os caras, eles ensinaram muita coisa. A gente era moleque, tudo era novo. Muitas pessoas especiais participaram do disco: Lino Krizz, Thaíde, Simone Soul, Sol, Vitor da Trindade, a rapaziada do Assassin, o Tanque…
Funk Buia: E tinha uma cobrança. A gente já fazia bastante show, mas não tinha o disco. Hoje o bichão tá vivão aí.
Gaspar: E esse disco proporcionou que a gente pudesse sair da quebrada, entendeu? A gente ficava muito naquele mundinho. Viajamos o Brasil, conhecemos outros países, esse disco fez com que a gente saísse da quebrada e conhecesse vários lugares que nunca imaginamos conhecer. Criamos uma estrada.

Vocês percebem que é um disco que influenciou outros trabalhos ao longo dos anos?
Pitchô – Eu acho que influenciou muito. Nessa época, o rap era muito pesadão. A gente veio com várias inovações.
Gaspar – “Hip Hop Rua” é uma música com a rima rápida. Hoje é fácil, você vê os moleques com o “speed flow”.
Funk Buia – A gente já fazia isso aí.
Pitchô – “Dom da Rima” a gente fez toda em cima de beatbox, isso era novo. Influenciou muita coisa. Depois desse disco, o cenário mudou um pouco.

E os elementos brasileiros, isso também não era algo assim tão comum…
Funk Buia – O Z’África sempre teclou nessa parada do que é nosso, tá ligado? A riqueza de ritmos é muito abundante: tem capoeira, os ritmos afro-religiosos, forró, xaxado, frevo, samba, umbigada, jongo… Ritmos infinitos. A gente explora isso pra fazer nosso rap. Esse disco é todo feito em cima da nossa brasilidade.
Gaspar – E a pesquisa musical também. A gente ia pra casa do Théo Werneck e ficava ouvindo muito vinil lá. Tinha essa coisa também de chamar os músicos pra tocar junto com o sampler, colocar elementos orgânicos junto com a batida eletrônica. A gente teve um cuidado de olhar mais pro Brasil pra não ficar tão preso ao rap estadunidense. Mas tem muita influência deles também, das batidas e dos funks que a gente sampleou. Mas tem sample de forró, tem Trio Nordestino, influência da capoeira.
Funk Buia – Tem um sample do Los Tropicanos, que é uma banda mexicana.

No show, vocês vão fazer os arranjos originais?
DJ Tano – Estamos ensaiando. Os músicos estão tirando os timbres e as notas pra fazer o mais próximo do original. O Érico está usando MPC pra tirar os mesmos timbres de bumbo e caixa, reforçando junto com a banda. A maioria das músicas está com arranjo original pra, quando bater, o público já identificar.

Vai lá:

Z’África Brasil – show de lançamento do vinil “Antigamente Quilombos, Hoje Periferia”

Quando: sábado 25/05, às 21h

Onde: Sesc Pompeia – R. Clélia, 93

Quanto: R$ 30,00

 

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Virada Cultural: Seun Kuti tem de ser uma prioridade em sua agenda http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/2019/05/15/virada-cultural-seun-kuti-tem-de-ser-uma-prioridade-em-sua-agenda/ http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/2019/05/15/virada-cultural-seun-kuti-tem-de-ser-uma-prioridade-em-sua-agenda/#respond Wed, 15 May 2019 12:25:37 +0000 http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/?p=394

Um velho dilema da Virada Cultural em São Paulo é organizar a agenda para aproveitar o maior número possível de atrações de sua recheada programação. Para a Radiola Urbana, neste ano, tudo gira em torno do show do nigeriano Seun Kuti (domingo 19/05, às 3h da madrugada, no Palco Anhangabaú). Nossa sugestão é se garantir nessa e depois planejar o resto. O músico esteve no Brasil em quatro oportunidades já e, em duas delas, a apresentação aconteceu ao mesmo molde à deste ano: em eventos gratuitos, no centro de São Paulo (na própria Virada Cultural, em 2012, e no Mês da Cultura Independente, em 2014). Em ambas oportunidades, foi emocionante observar a devoção da comunidade nigeriana da cidade, que se garantiu na frente do palco e fez um espetáculo à parte. Já no ano passado, ele se apresentou no Nublu Jazz Festival, exatamente no dia seguinte ao assassinato de Marielle Franco e iniciou o show com a projeção de uma fotografia da vereadora.

A arte é uma das curas que temos para domar essa angústia de muitos de nós diante de um projeto político que tem como meta promover a barbárie e sabotar o pensamento crítico. A história de Seun traz essa força no sangue. Ele é um dos filhos de Fela Kuti, o criador do afrobeat e incansável ativista pelo pan-africanismo e contra o autoritarismo do estado. Falamos dele aqui no blog duas vezes recentemente. Criamos uma playlist comentada com 20 faixas na semana de seu aniversário de 80 anos (em 15 de outubro de 2018, justamente entre o primeiro e o segundo turno das desgastantes últimas eleições no Brasil) e entrevistamos o cineasta Joel Zito Araújo em abril deste ano — ele é diretor do documentário “Meu Amigo Fela”, exibido no festival É Tudo Verdade e com estreia em circuito nacional prevista para o segundo semestre.

A obra de Fela e o legado que Seun carrega são, definitivamente, uma inspiração para a necessária resistência que os atuais tempos exigem. Em entrevista ao blog em 2014, Seun falou sobre sua preocupação com as intervenções das corporações ocidentais na Nigéria. “Os que governam o país são negros, mas não são africanos. Eles não representam o interesse do povo africano. Basicamente são as corporações que se dizem preocupadas com a necessidade de se haver investimentos na África, mas o que eu vejo é corrupção e poluição do meio ambiente. Nós não vemos os benefícios desses investimentos estrangeiros na África. Talvez 2% dos africanos vejam”, disse. “Quanto mais ‘auxílio’ a África vem conseguindo, mais pobreza está chegando ao continente”. Corta cena, muda de continente, avança cinco anos na linha do tempo e surge a lembrança de um dos trechos de uma entrevista histórica deste ano: “Nunca vi um presidente bater continência pra bandeira americana. (…) Alguém acha que os Estados Unidos vão favorecer o Brasil?”.

Em outro trecho de nossa conversa com o nigeriano, ele falou da necessidade de se conectar ao vivo, para além das redes sociais. “O cenário das redes sociais no meu país é realmente perverso (…) porque é manipulada por quem tem mais dinheiro. (…) As organizações não podem depender das mídias sociais — acessar um link e dizer “sim”, assinar uma petição online. Não. As pessoas precisam sentar, conversar por horas, compartilhar ideias e chegar às soluções.” Aí a gente se lembra da máquina das fake news que, comprovadamente, contribuiu para a eleição do nosso atual presidente.

Seun Kuti, é importante frisar, faz jus ao discurso no palco e sua performance tem, de fato, o poder de um ato político. Acompanhado da Egypt 80, a última banda de Fela (morto em 1997), ele comanda um transe que combina as letras de protesto com uma incomparável potência instrumental — baseada em um balanço repetitivo (de baixo, percussão, guitarra e bateria) entrecortado pela fúria dos ataques de metais. A catarse se multiplica com a sempre impressionante desenvoltura das dançarinas (também backing vocals) que o acompanham e o momento em que elas vão à frente do palco para mostrar o milagre dos movimentos de seus corpos é de tirar o fôlego. Ele tem cinco discos lançados desde 2008 e “Black Times” (do ano passado) é o mais recente. Vai na fé!

Vai lá:

Seun Kuti na Virada Cultural

Quando: domingo 19/05, às 3h

Onde: Palco Anhagabaú

Quanto: de graça

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Miles Davis: obra do artista mais influente do jazz é tema de curso em SP http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/2019/05/08/miles-davis-obra-do-artista-mais-influente-do-jazz-e-tema-de-curso-em-sp/ http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/2019/05/08/miles-davis-obra-do-artista-mais-influente-do-jazz-e-tema-de-curso-em-sp/#respond Wed, 08 May 2019 10:45:57 +0000 http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/?p=384

Miles Davis: revoluções profundas no jazz e um fraseado autoral no trompete

Quando Miles Davis lança o disco “Miles Ahead”, em 1957, seu nível de confiança na própria música já era grande o suficiente a ponto dele topar intitular o trabalho com uma expressão de duplo sentido, em que um dos significados é “milhas à frente”. Ele estava certo. Naquele momento, o trompetista e compositor ainda não havia transformado o jazz tão profundamente como faria logo depois — mas já vislumbrava o futuro do gênero, esbanjava no currículo obras icônicas como “Birth of the Cool” (o disco que antecede “Miles Ahead”, também de 1957, e torna-se referência do gênero cool jazz) e desfrutava do reconhecimento pela autenticidade do fraseado claro e lírico do seu trompete.

O músico e educador musical paulistano Tiago Frúgoli oferece a partir da semana que vem um curso de apreciação da obra de Miles Davis, que cobre justamente o período de pouco mais de dez anos que separam seus discos mais icônicos: “Kind of Blue”, de 1959, o marco zero do jazz modal e constantemente apontado como um dos discos mais importantes da história da música; e “Bitches Brew”, de 1970, que inaugura o jazz fusion e aproxima o músico das influências de rock e funk.

Trocamos uma ideia com Frúgoli sobre o conteúdo das aulas e a importância do jazzista. Também preparamos uma playlist com dez faixas lançadas no período que cobre o curso: oito delas serão apreciadas ao longo das aulas; acrescentamos “Will O’The Wisp” (“Sketeches of Spain”, 1960) e “Someday My Prince Will Come” (do disco homônimo, de 1961) para completar um top 10 representativo das gravações do músico pela Columbia Records entre 1959 e 1970. Leia a entrevista, ouça a playlist e inscreva-se no curso!

Qual é a estrutura do curso?
O curso é composto por 5 aulas de 80 minutos. A principal atividade é a escuta com atenção (algo que sinto muita falta hoje em dia, com tanta música disponível e constantemente tocando como pano de fundo), seguida de discussões sobre aspectos da composição, execução e gravação das obras. As aulas são pensadas de maneira a introduzir o assunto ao aluno que está tendo um primeiro contato com essa música, mas aprofundar a escuta e compreensão daquele que já tem familiaridade com o repertório.

Entre tantos nomes importantes do jazz, por que escolheu Miles Davis?
Acho que Miles é o artista que protagoniza o maior número de inovações dentro do jazz. Antes de “Kind of Blue”, já tinha encabeçado (com Gil Evans) o que viria a ser chamado de “cool” e (com Horace Silver e Art Blakey) inaugurado o hard bop. Meu curso foca em apenas uma parte dessa história. Sinto que poucos artistas passam por tantas mudanças criando novas ondas e não somente as seguindo. Em um plano pessoal, me interessa o papel de Miles como produtor, para além do trompetista. Acho que a qualidade dos seus discos se deve, em boa parte, a decisões conceituais que ele tomava, o direcionamento que dava para o projeto e os músicos que escolhia.

Por que o recorte de “Kind of Blue” a “Bitches Brew”?
Primeiro, por que são os dois álbuns mais influentes dele. “Kind of Blue” está em qualquer discografia básica de jazz. O álbum é uma unanimidade entre músicos, apreciadores e estudantes. É um disco que inovou e influenciou muito na época, mas também um disco cuja música envelheceu bem: acessível o suficiente para agradar quem está começando a ouvir, ao mesmo tempo que oferece muito musicalmente para quem se aprofunda. Já “Bitches Brew” é um clássico por outros motivos. Ao contrário de “Kind of Blue”, foi o álbum que fez Miles ser venerado pelos fãs de rock e desprezado por boa parte de seu público anterior. O disco dá passos gigantes, não só esteticamente, mas também em técnicas de gravação e edição que não tinham sido usadas no gênero até então. Os dois álbuns parecem vir de universos diferentes em uma primeira audição — mas, ouvindo o que foi lançado entre um e outro, é possível enxergar uma continuidade.

Qual é o seu disco preferido dele e por quê?
Tenho um apego especial pelo “Miles Smiles”, de 1967. Conheci o álbum por meio de uma fita k7 gravada pela minha tia-avó. Fui cativado imediatamente, antes mesmo de entender o que acontecia nas faixas em termos musicais. Eu já estava estudando música a sério e fazendo análise formal, mas ouvi esse álbum repetidamente por anos antes de conseguir estudar as músicas. A liberdade desse trabalho quebrou as amarras que eu estava construindo, de que havia um jeito certo ou errado de se fazer jazz ou música em geral.

Miles e um dos seus discípulos mais dedicados, o saxofonista Wayne Shorter

E qual foi a banda que melhor deu o suporte para ele desenvolver sua criatividade, na sua opinião?
Acho que o quinteto dos anos 60 (chamado comumente de segundo quinteto) é um auge. Todos músicos eram bem mais novos que ele e viraram referências máximas em seus instrumentos depois: Herbie Hancock (piano), Wayne Shorter (sax), Ron Carter (baixo) e Tony Williams (bateria) — que começou a tocar com Miles com 16 anos. A história fala por si. Também gosto do fato de ser um grupo que gravava majoritariamente composições originais e que não havia uma predominância do líder nessas composições. Apesar disso, é possível perceber o quanto Miles imprimia sua estética. Isso fica evidente se ouvirmos composições que foram gravadas também nos discos solo dos integrantes.

Esse aspecto, aliás, parece ser uma marca na carreira de Miles: reunir em torno de si outros músicos fundamentais que posteriormente se desenvolvem em seus respectivos trabalhos autorais. John Coltrane, Cannonball Adderley, Herbie Hancock, Wayne Shorter são só alguns exemplos. Acredita que, além de mudar o jazz em seus trabalhos como solista, ele foi também importante para a evolução de outros ícones do gênero?
Com certeza. De John Coltrane a Airto Moreira, entre tantos outros, é impressionante ver como os músicos que tocaram com Miles parecem ter essa experiência como um dos marcos de suas vidas. Pelos relatos, parece ser algo que realmente muda a maneira da pessoa de fazer música a partir dali. Acredito que a influência de Miles vai muito além do trompete e do jazz.

De Kind of Blue a Bitches Brew

Quando: Segundas (13/5, 20/5, 27/5, 3/6 e 10/6), das 19h30 às 20h50

Onde: Espaço Musical Ricardo Breim – Rua Paulistânia, 162

Quanto: R$ 250,00

Mais informações: (11) 3813 2955

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Geovana mostra o balanço e a malandragem de seu samba em SP http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/2019/05/01/geovana-mostra-o-balanco-e-a-malandragem-de-seu-samba-em-sp/ http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/2019/05/01/geovana-mostra-o-balanco-e-a-malandragem-de-seu-samba-em-sp/#respond Wed, 01 May 2019 21:14:39 +0000 http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/?p=374

Foto: Renato Nascimento

O sorriso de Geovana é um abraço. Os lábios se esticam, desvendam os dentes brancos que contrastam com a pele preta, os olhos brilham apertados e iluminam toda a sala de seu pequeno apartamento alugado no centro de São Paulo. E ela adora sorrir e gargalhar com os próprios comentários. O humor é de quem tem malandragem no sangue. Usa gírias e expressões da mesma sagacidade de quem, em 1975, cantou: “ora, veja só, eu te amava tanto / mas agora não te quero mais / gosto de fazer amor / quem tem carinho, me leva / as cartas estão embaralhadas / corta que eu quero dar” . O papo é reto, o timbre de voz é grave e o balanço é de primeira. “Quem Tem Carinho Me Leva” é uma das faixas do disco homônimo e um hit dos bailes de samba-rock. O LP, inspiradíssimo, é um tesouro da música popular brasileira. O repertório traz ainda “Amor dos Outros” (também um clássico dos bailes), “Tataruê” (pedrada afro-brasuca) e “Pisa Nesse Chão Com Força” – composição que ela defendeu na Bienal do Samba de 1971, em São Paulo, e lhe garantiu um contrato com a gravadora RCA.

A gravação reuniu alguns dos profissionais mais badalados da música brasileira no período: o produtor Rildo Hora, o arranjador Luiz Eça, os violonistas Dino e Hélio Delmiro, os baixistas Luizão e Sérgio Barroso, os bateristas Robertinho Silva, Mamão e Wilson das Neves, o percussionista Pedro Sorongo (ou Pedro Santos), entre outros. O disco se tornou raro e hoje uma cópia original em bom estado custa entre R$ 300,00 e R$ 500,00. Em 2003, o trabalho foi relançado em CD.

Filha de mãe mineira e pai senegalês, Geovana lançou apenas um outro disco em 1988 (“Canto Para Qualquer Cantar”, pela Star Records) e teve duas parcerias com Beto Sem Braço gravadas pelo Fundo de Quintal nos anos 80. Embora nunca tenha parado de compor e viver o samba, teve de se virar ao longo das mais quatro décadas que se seguiram após o lançamento de “Quem Tem Carinho Me Leva”. “Trabalhei de doméstica, em bar, no Museu de Imagem e do Som vendendo discos, em reciclagem, na feira, com limpeza, tive birosca”, diz ela à Radiola Urbana. Hoje, aos 70 anos, se diz feliz em trabalhar somente com música. “Show na minha vida é a primeira vez que pinta assim, amigo.” Ela se apresenta nesta quinta, 2 de maio, na Casa de Francisca, em São Paulo, junto com o músico paulistano Curumin. Além disso, ela se prepara para lançar um novo disco ainda este ano, “Brilha Sol”.

Radiola Urbana teve o prazer de conversar com a artista em seu apartamento e ainda a acompanhou em uma cervejinha no boteco da esquina. Confira a entrevista e vá ao show. O suingue de Geovana não pode ser desperdiçado pela música brasileira.

Como seu pai veio parar aqui no Brasil?
Pois é, foi com a família. Vieram trabalhar. Minha mãe e ele se separaram e o resto eu não sei mais nada.

Você conheceu seu pai?
Conheci em uma foto, que também nunca mais achei. Ele é morto. No Balé do Senegal, eu tinha uma prima e uma irmã por parte de pai com outra mulher. Ele voltou pro Senegal. Mas ele, de fato, morreu. Morreu antes que minha mãe. Não o conheci.

Só uma pergunta por questão de etiqueta: prefere que eu te chame de “senhora” ou “você”?
Não, pois é, “senhora” é o passado, né?

Posso te chamar de você, então?
“Você” sou eu. (risos)

Você acredita que a sua música carrega um pouco dessa ancestralidade africana?
Ah sim, acredito. Mas ela é bem calcada na música brasileira. Dizem que eu faço um samba diferente. Hoje eu noto que tem algo a ver, não é aquele samba… Eu sei que ele é bem enraizado. Eu acho minha música moderna, uma nova linguagem. Já era naquela época e na atualidade continua. Veja só: vocês têm o LP aí, que hoje tá valendo essa grana, então eu acho que na música eu fiz a coisa certa. Só não fui bem entendida – ou se fui, falaram “vamos deixar ela aí, senão vai atrapalhar a gente”. Você sabe, na música popular brasileira tem os empurra-rabo, né? Mas só que é o seguinte: não fizeram as coisas antes porque não quiseram, porque eu nunca saí da mídia. Minha música toca até hoje. Pouco ou muito, sempre veio grana pra mim. Esse LP levou quatro anos pra sair, deu muito trabalho.

Capa do disco de 1975, em que o nome da artista saiu com a grafia errada. Foto: Renato Nascimento

Por que levou tanto tempo pra sair?
Pois é, porque o Rildo Hora já era produtor de outras pessoas e ele também estava fazendo o disco dele – então ele não ia priorizar de fazer o meu.

Você tem boas lembranças do período de gravação do disco?
(risos) Essa é uma pergunta, realmente… Eu tenho boas lembranças pelo fato do disco estar aí. Mas a feitura dele foi muito dolorosa porque antigamente os artistas saíam com divulgador – eu não tinha isso. Só os medalhões da gravadora é que tinham. Hotel que eu me hospedei foi descontado e eu fiquei dura. Eu estava com filho criança ainda, mais aluguel e eu fui perdendo tudo. Entrei numa recaída danada, tive que trabalhar em outros lugares – cozinhar, lavar… Fiz de tudo pra me manter viva e porque sempre gostei de trabalhar. Mas eu esperava, sim, que desse certo. Aí depois que fizeram o disco de todo mundo (inclusive o dele, o Rildo Hora), é que vieram fazer o meu. E eu não tive toda essa assistência. Lógico: tive bons músicos, uma boa capa… Foi gratificante pela qualidade da música e do som, foi um trabalho bem esmerado, bem vigoroso. Mas a lembrança de ter que esperar quatro anos não é boa. Eu já tinha ganhado a bienal, já tinha gravado com o Jair Rodrigues. Naquela época, muita gente gravou minha música, “Pisa Nesse Chão Com Força”. Mas quando eu vim a aparecer mais um pouco foi com “Ô, Irene” e “Lã do Meu Cobertor” (ambas parcerias com Beto Sem Braço gravadas pelo Fundo de Quintal, em 1986 e 1988, respectivamente). Aí tudo bem que era produção do Rildo também. “Ô, Irene” foi cantada pelo morro inteiro, porque o pessoal da pesada que comandava o morro era o Beto Sem Braço e os amigos dele. Então esse pessoal gostava muito do Beto e de mim também. Mas isso aí não vai me botar em cana não, hein? (risos)

Como foi o trabalho com os músicos no disco? Porque tem músicos muito renomados na gravação, né? Como Wilson das Neves, Hélio Delmiro…
Muito legal, muito legal… O Wilson, a gente já se conhecia. Eu me dava bem com os músicos, eles gostavam de mim. Tinham paciência, carinho. Falavam sobre minha música, achavam diferente. Diziam que minha música seria lembrada no futuro e realmente isso está acontecendo agora.

E outro músico que é muito renomado, principalmente hoje em dia, até tardiamente, é o percussionista Pedro Sorongo…
É, o Pedro Sorongo… Era meu amigo também. Ele inventava batucada na água, chocalho, fazia apito, parava muito na minha. Metódico, espiritualista, o negócio dele era yoga, aquela coisa bem indiana, esotérica.

E ele foi importante na gravação do disco?
Ah, foi. Olha, cada um na sua função, todos eles foram importantes – inclusive pra eu poder cantar. Cada um deles sempre tinha um carinho comigo (pega o LP pra olhar a ficha técnica na contracapa). Nelsinho (arranjos e regência) era meu amigo; Dino (violão); Hélio Delmiro (violão); Luiz Cláudio (cavaco); Toninho (cavaco); Barrosão (Sérgio Barroso, baixo); Robertinho (bateria); Mamão (bateria); Das Neves (bateria); Gilberto D’Ávilla (surdo); Geraldo Bongô (atabaque), ganhei a Bienal de São Paulo com ele tocando atabaque e o Darcy da Mangueira tocando violão; Everaldo (ganzé); Pedro Sorongo (percussão)… Todo o pessoal aqui. Esse aqui é da minha família, o Tobu (flauta de bambu), irmão do meu pai.

Entre os que estão vivos, você tem contato com algum?
Não tenho mais, não. Eu tive há pouco tempo com o Wilson das Neves (morto em 2017), o resto eu nunca mais vi. Esse disco foi um negócio: as pessoas chegaram e depois sumiu todo mundo.

O disco saiu do jeito que você queria?
Sim! Só não saiu na hora que eu precisava, isso não aconteceu. Política. Dinheiro pra lá e pra cá. Eu era dura, só tinha a música e a voz. É bom lembrar que naquele momento a gente estava numa ditadura ainda. Martinho da Vila era militar, era mais pra ele. Martinho era sargento nessa época, então o negócio ficava mais pra ele.

Ele foi beneficiado?
Ah, foi. Lógico! Porque o Rildo joga com o pau de dois bicos, ele não ia perder um negócio desses.

A música “Quem Tem Carinho Me Leva” tem versos que podem ser considerados feministas, né? Você se considera feminista?
(risos) Não, de vez em quando, na situação. É aquele negócio, é uma pedrinha e eu estou no tabuleiro. Tem as pedrinhas, então, quando é necessário eu sou. Mas se você tem algumas peças na mão, você tem que saber usá-las. Mas Betty Friedan eu não sou não. (risos)

Mas você sempre soube usar essas pecinhas que você tinha na mão?
Éééé! Depois de apanhar bastante de vocês, homens. Irmãos, filhos, maridos, amantes, homens do governo. Nós somos de um país em que o slogan é grana, então você tem que saber fazer alguma coisa pra sobreviver, não ficar muito vulnerável. Inclusive quando a gente não tem grana, você tem que jogar o plano B pra poder sobreviver e saber o que você quer mesmo. Você sabe que é difícil, se você retroceder, não adianta. Eu não posso correr atrás, de trás eu já tô vindo. Eu tenho que caminhar é pra frente.

Mas você apanhou muito literalmente, Geovana?
De diversas maneiras, né? Me livrei de algumas, outras ficaram em aberto, outras cicatrizaram, outras de repente vem no pensamento, outras de repente “uuui!”. Tem dia que acordo com o pé direito e a alma tá do lado esquerdo, aí é fogo. Não adianta acordar com qualquer um dos dois pés. A cabeça está no mesmo lugar, louuuuca! (risos) Isso é antiguíssimo. Se eu ficar muito alegre, já tô vendo que lá vem porrada, então eu já fico na minha. Desvio. Dá pra desviar. De vez em quando, não dá.

Foto: Renato Nascimento

Tanto na indústria fonográfica quanto no ambiente do samba, existe muito machismo. Você se sentiu prejudicada de alguma forma?
Sobre machismo, eu não era sabedora. Não sabia o que significava. Talvez eu soubesse, mas não por esse nome. Meu padrasto era machista: ele andava na rua lá na frente, minha mãe atrás e eu atrás da minha mãe. Era um negócio que não era muito legal. Tinha muita briga e ele “ah, mas eu sou homem, eu que comando”. Mas a minha rebeldia não deixou ele mandar em mim. Ele passou a fazer isso com os filhos, todos eles odiaram ele e odeiam até hoje mesmo ele estando morto. Eles já tinham uma certa idade, viram acontecer comigo e ficaram calados. Quando viram, aconteceu com eles. Aí era pai deles, problema deles. Mas eu saí de casa cedo, fui resolver minha vida e tô resolvendo até hoje aos poucos.

Você saiu de casa com que idade?
Ah, meu filho, eu saí de casa com dez anos, corri o mundo, fui pra Minas, pra não sei onde, tudo colégio interno, uma merda.

E não voltou mais?
Não dava certo. Eu sempre acreditei em ter uma família, mas até hoje não tenho. Quer dizer: a minha família são os amigos da música. Já o pessoal sanguíneo…

Não muito?
Não nada! (risos)

Você tem muitos irmãos de sangue?
Por parte de mãe, tenho oito.

E você não se relaciona com esse pessoal?
Eu sou Gomes, eles são Lopes Sá. Eles têm uma outra vida. Não gostam da minha altura, porque eles são baixinhos. Não gostam da minha liberdade, porque eles são presos. (risos)

São presos em que sentido?
Em tudo. Veja bem, a gente nasce em um país em que se diz “somos abertos, não tem racismo” blá blá blá. Vamos ver: o pessoal de 1930 foi morar na favela, lá eles já são bisavós e bisavôs, não saíram de lá, não ganharam nada, moram no barraco, sem esgoto. Entende? Eu levei porrada, mas eu saí fora. Eu caí dentro das coisas que eu queria e vim morar num local que é bairro. Isso gerou um despeito das minhas irmãs: “ah, você não trabalha”. Acham que fazer música não é trabalho. Aí surgiram umas pitadas de inveja. Quando eu visitava, todo mundo (imita gente cochichando). “Ah, vai pra puta que pariu, não venho mais nessa porra.”

Uma coisa muito interessante em relação a esse disco é que ele se tornou um clássico nos bailes de samba-rock, né?
Por incrível que pareça! Eu fico sem graça quando dizem que sou a “deusa negra do samba-rock”. Eu nunca me liguei nessa, não. Eu nunca saí da mídia, eu reinava nos bailes. Mas eu vinha pra São Paulo, fazia as coisas e voltava porque eu queria ficar com os meus filhos. Isso também não deu certo. Até que eles pegaram o rumo deles, já não me queriam perto deles e aí eu vim pra São Paulo, vim pra ficar e pronto. Mas eu realmente sou a deusa do samba-rock: onde eu vou fazer show, o pessoal canta, já conhecem a minha música. Tô aí de volta, aos 70 anos.

Esse reconhecimento é do povo, né? Não é exatamente da mídia.
É do povo. A mídia fica por trás manipulando, ela tem as pedrinhas dela. Tanto que lançaram o CD e hoje não querem conversar. Que papo é esse? Já venderam, estão se escondendo por quê? Sabem onde eu moro, sabem que eu sou a dona do repertório… Eu não tenho nada assinado pra eles ficarem com as minhas coisas. Eu quero as minhas músicas pra mim, não devo mais nada a eles, já comeram o que tinham que comer.

Hoje em dia uma música que toca muito nas festas é o “Tataruê”, né?
Porque o “Tataruê” dá uma boa dança afro, né? Já fiz até balé afro com ela lá no Rio.

Você se lembra qual foi a inspiração pra essa música?
Ah rapaz, aí você faz umas perguntas que eu não lembro. Sabe por quê? A inspiração vem, de repente ela pintou. Esse negócio é difíííícil de explicar… (risos)

Mas tem uma referência do candomblé?
Tem umas batidas do candomblé sim. A letra também faz uma referência aos meus ancestrais. Sou tata, sou chefe. (risos)

Tinha macumba na sua casa?
Meu padrasto era matreiro e macumbeiro, né? Tinha macumba lá em casa na sexta e na segunda, era macumba que não acabava mais. Minha mãe não suportava, mas tinha macumba. Umbanda, né? Uma mistura… A outra parte eu não conto, a parte pesada dele lá. Mas as batidas e as músicas eram boas.

E você se envolvia com os rituais?
Meu negócio era música mesmo. Eu sempre fui mais de oração, não sou muito de ir à igreja. Eu fui ao candomblé, fui catulada, mas não passou disso. Sou catulada, tenho certas obrigações, mas pedi licença aos orixás pra ficar só nas minhas orações com meu anjo da guarda. Aliviou minha alma, refrescou, meu espírito ficou mais leve. Pra você assentar seu orixá é uma grana violenta, nem na igreja é assim. Tem que ter uma disciplina, comer assim, tem toda uma liturgia que precisa ter grana e paciência. É muito bonito, é uma coisa perfeita. Mas pra mim não dá, sou geminiana. Mas é o seguinte: a comida de todos orixás, eu faço. Eu não recebo nada, não sou rodante. Mas sou a mulher que conhece todas as comidas do orixás e sei fazer todas elas.

Mas você não se considera da religião?
É, certos lugares eu vou. Eu tenho que agradecer, tenho que cumprimentar. Se eu for convidada, tenho que ir. É muito bonito, gosto da dança, da comida. Quando tem uns toques, eu vou. Gosto de toque de caboclo. O candomblé e a umbanda são como ir à terapia, fazer uma consulta. É a mesma conversa. Só que você vai conversar com a zeladora do santo, ela vai te dar os mesmo conselhos que o psicólogo. É o mesmo papo, não muda.

Você lança esse disco de 1975 e depois outro no final dos anos 80, né?
É, que tem músicas boas, mas não é um disco bom. Ficou a desejar.

Mas se passaram mais 40 anos desde seu primeiro disco e depois você lança só mais um. Você continuou trabalhando com música nesse tempo todo?
Sim, e mais uma série de coisas. O difícil é eu sair da música. Eu morro, mas não saio da música. Meu negócio é música mesmo. No botequim ou no cemitério. Ela sempre fez parte da minha vida, entrava uma coisinha ou outra. Trabalhei de doméstica, em bar, no Museu de Imagem e do Som vendendo discos, em reciclagem, na feira, com limpeza, tive birosca. Depois larguei essa droga toda e falei “agora é a música”. Trabalhei como segurança e conheci esse cidadão (o músico Guilherme Lacerda, que acompanha a entrevista e é dono do apartamento em que Geovana mora), que hoje é meu parceiro. Fui segurança da (casa noturna) Trackers, uns seis meses. Há uns 5 anos, estou só com a música. Show na minha vida é a primeira vez que pinta assim, amigo. Curumin tem dado uma força legal, é a terceira vez que a gente vai fazer show juntos. Pra mim, é muito bom. As porradas me deram quando eu era jovem, agora eu estou na manha. Ainda consigo uns brotos aí… De goiaba! (risos)

Você está feliz, então?
Tranquilíssima. Sem puxar saco, nem nada. Tranquila. E agradecida. Eu tenho tudo, estou muito bem. Tenho médico, advogado, esteticista, malucos, professor, cervejeiro – ô delícia.

Foto: Renato Nascimento

Você gosta de tomar uma cervejinha, Geovana?
Isso é um convite? (risos)

Como está o processo desse novo disco, “Brilha Sol”?
Estamos na feitura, devagar. Enquanto isso, estou afinando a voz – quer dizer, engrossando. Estamos preparando o repertório, temos músicas novas, parcerias antigas. Estamos fazendo com paciência e afinco. Tem muita coisa pronta, mas a gente não pode dizer que vai sair amanhã. Mas espero que saia esse ano.

Vai lá:

Curumin convida Geovana

Quando: 2 de maio

Onde: Casa de Francisca (Rua Quintino Bocaiúva, 22)

Quanto: R$ 53,00

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Mixtape celebra os 25 anos de “Illmatic”, obra-prima do rapper Nas http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/2019/04/24/mixtape-celebra-os-25-anos-de-illmatic-obra-prima-do-rapper-nas/ http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/2019/04/24/mixtape-celebra-os-25-anos-de-illmatic-obra-prima-do-rapper-nas/#respond Wed, 24 Apr 2019 15:03:11 +0000 http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/?p=368

O rapper e produtor Q-Tip (do A Tribe Called Quest) não gosta de desgastar a expressão “obra-prima”, mas não hesita em afirmar que “Illmatic” (Nas, 1994) é uma delas na história do hip hop — comparável ao que representa “What’s Going On” (Marvin Gaye, 1971) para a soul music. O depoimento está em um dos episódios da segunda temporada da ótima série documental “Hip Hop Evolution” (disponível no Netflix) e reafirma a relevância do álbum de estreia do rapper nova-iorquino. O lançamento do disco acabou de completar 25 anos no dia 19 de abril e o aniversário foi festejado pelo DJ Chris Read com uma mixtape que mescla as faixas originais do trabalho, com remixes e as músicas de jazz e soul sampleadas (de artistas como Donald Byrd, Kool and Gang, Michael Jackson, Reuben Wilson e outros) para as bases confeccionadas pelos produtores mais badalados do período: o próprio Q-Tip, Pete Rock, DJ Premier e Large Professor. Vai na fé!

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Obra dos Tincoãs chega às plataformas digitais http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/2019/04/17/obra-dos-tincoas-chega-as-plataformas-digitais/ http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/2019/04/17/obra-dos-tincoas-chega-as-plataformas-digitais/#respond Wed, 17 Apr 2019 15:11:03 +0000 http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/?p=364

Há uma música do disco “Cinco Sentidos” (2010), de Mateus Aleluia, em que a letra fala: “vamos celebrar / o amor há de renascer das cinzas / vamos festejar o cinza com amor”. “Amor Cinza” é presença quase certa no repertório dos shows do compositor baiano e seu efeito catártico é infalível. O refrão torna-se um mantra que todos cantam — mesmo quem nunca ouviu a canção antes. É a mágica da melodia e das palavras. Parece também um lema possível para o processo constante de redescoberta da música d’Os Tincoãs, do qual Aleluia fez parte nas décadas de 60, 70 e 80. A boa nova é que, desde a semana passada, parte grande da obra do grupo foi lançada nas plataformas digitais.

O catálogo que foi disponibilizado é o que pertence à Sony Music: os LPs “O Africanto dos Tincoãs” (1975) e “Os Tincoãs” (1977), além das gravações de quatro compactos lançados entre 1976 e 1982. Ainda é aguardada a liberação do LP “Os Tincoãs” (de 1973), cujos direitos são da Universal Music. “Esse acordo é fruto de uma longa pesquisa e negociação para disponibilizar o acervo”, diz a advogada Monyca Motta, que representa Mateus Aleluia e a obra do grupo. Ela é também uma das idealizadoras do projeto do livro “Nós, Os Tincoãs”, lançado em 2017, que compila textos sobre a importância histórica do trio vocal de Cachoeira (Bahia) e traz três CDs encartados.

A chegada às plataformas digitais é mais um passo na direção da consagração do legado, que deve ser compreendido como fundamental à música brasileira e há de alcançar cada vez mais ouvidos e almas. A combinação de cantos afrorreligiosos com sofisticadas harmonias vocais e arranjos inspirados (com ênfase no violão, na percussão e em poderosos acompanhamentos de metais) é uma das mais bem elaboradas abordagens artísticas para os toques de terreiro. Vamos festejar os Tincoãs — com amor.

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Filme sobre Fela Kuti dá o recado: “não há alternativa senão resistir” http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/2019/04/10/filme-sobre-fela-kuti-da-o-recado-nao-ha-alternativa-senao-resistir/ http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/2019/04/10/filme-sobre-fela-kuti-da-o-recado-nao-ha-alternativa-senao-resistir/#respond Wed, 10 Apr 2019 15:00:40 +0000 http://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/?p=360

Fela Kuti (1938 – 1997): músico nigeriano, inventor do afrobeat, ativista pan-africanista, opositor do governo militar da Nigéria nos anos 70, 80 e 90. Carlos Moore (1942): etnólogo cubano, ex-assessor de Malcolm X, amigo de Maya Angelou, militante do movimento negro, biógrafo de Fela. Sandra Izsadore: ativista e artista norte-americana, pantera negra, influência crucial na conscientização política do nigeriano. Joel Zito Araújo (1954) : cineasta brasileiro, diretor de filmes que refletem sobre o racismo no Brasil. Essas quatro mentes pensantes da intelectualidade negra mundial se entrelaçam em um mesmo discurso no filme “Meu Amigo Fela”, em cartaz no festival de documentários É Tudo Verdade, com duas exibições programadas para os próximos dias: sexta, 12/04 (às 19h), no Centro Cultural São Paulo (São Paulo) e sábado, 13/04 (às 18h), no Estação Net Botafogo (Rio de Janeiro). A obra aborda a biografia do artista a partir de conversas conduzidas por Moore e, naturalmente, constrói uma reflexão sobre o ativismo negro ao contextualizar passagens vividas pelo entrevistador em sua convivência com Maya Angelou e Malcolm X.

Fela teria feito 80 anos em outubro do ano passado e este blog publicou, na ocasião, uma playlist comentada que relaciona suas principais composições com algumas das passagens mais marcantes de sua trajetória. Além de sua incontestável contribuição à música como criador e principal divulgador de um gênero musical (o afrobeat), ele dedicou sua obra à contestação das desigualdades na Nigéria e na África. Seu ativismo incomodou os militares e ele foi vítima de sucessivas agressões. No episódio mais grave, sua casa foi invadida por centenas de soldados que distribuíram porrada, estupraram mulheres e arremessaram a mãe de Fela (a militante e precursora do feminismo na Nigéria, Funmilayo Ransome-Kuti) do terceiro andar – dias depois, ela morreria em decorrência dessa agressão. O músico se casou em uma mesma cerimônia com 27 mulheres e todos (além de músicos de sua banda e amigos) viviam na mesma residência, batizada de República Kalakuta. Nos anos 80, um homem de Gana conhecido como Professor Hindu se torna seu guru espiritual. O comportamento de Fela se torna agressivo e isso fez com que muitos amigos se afastassem – o filme não se furta em abordar profundamente essa fase.

A primeira sessão do filme no festival aconteceu no domingo 7/4, no Instituto Moreira Salles, na Avenida Paulista. No mesmo dia, na comunidade de Guadalupe, no Rio de Janeiro, uma família negra foi vítima de um fuzilamento por parte do exército, que disparou 80 tiros contra um automóvel – o músico e segurança Evaldo dos Santos Rosa, morreu. Um dos entrevistados de “Meu Amigo Fela”, o ativista, poeta e cineasta jamaicano Lebert “Sandy” Bethune dá uma declaração que soa como um lema para os brasileiros em 2019: “não há alternativa senão resistir”. A Radiola Urbana conversou com Joel Zito Araújo por telefone. Confira!

Como surge o seu interesse em fazer um documentário sobre Fela Kuti?
Foi uma casualidade. O Carlos Moore me procurou depois de ter visto meus filmes. Ficamos amigos e, pouco tempo depois, ele me deu a tradução do livro dele “Fela – Esta Vida Puta” (editora Nandyala, 2011). Eu conhecia um pouco da música do Fela, mas não conhecia a história. Ele me falou: “acho que você é o cara pra fazer um filme sobre ele, eu sinto isso”. A partir daí, comecei a pensar. Eu já sabia, desde o início, que eu teria dificuldades porque o Brasil não tem tradição de fazer filmes sobre personagens estrangeiros. Nossa tradição, especialmente pra financiamento, é para projetos culturais brasileiros. Inclusive a Globo Filmes, que já entrou em outros projetos meus, falou: “pô Joel, sua ideia é muito legal, mas não é cultura nacional”. Eu passei uns seis anos procurando esse dinheiro até que finalmente eu consegui ganhar um edital do BNDES e aí o filme começou a se viabilizar. Na medida em que eu fui pesquisando, lendo e relendo o livro, tive longas conversas com o Carlos e fui cada vez mais me apaixonando pela história.

Muitos depoimentos são surpreendentes, de muita intimidade. Acha que seria possível conseguir esse tipo de conteúdo dos entrevistados sem a presença de Carlos Moore?
Não, acho que essa intimidade só foi possível por causa dele. O Carlos viveu a história, sofreu, sorriu, partilhou do destino do Fela. Eu acho que é um filme de intimidade, esse foi o meu dispositivo. Se não fosse o Carlos, eu teria dificuldade de fazer o filme. Essa é minha impressão. E à medida que eu fui conhecendo ele, fui percebendo o potencial dele. Fui intuindo que ele, numa conversa com essas pessoas diante das câmeras, ia funcionar muito bem. Quando gravamos o primeiro encontro, tive a certeza de que ele era um grande anfitrião e conversador. Eu percebi que eu tinha acertado no dispositivo que eu inventei, que era de trabalhar o Fela a partir da intimidade, dos seus amigos, desse rememorar.

A partir desses dois personagens, o filme reflete sobre a intelectualidade negra de um modo geral. Essa é uma ideia que surge desde o início do projeto ou se desenvolveu durante o processo?
Foi algo planejado desde o início. Essa era a intenção do filme. Mas eu sempre fui aberto à surpresa. Por exemplo, o momento em que o Carlos encontra com a Sandra foi surpreendente. Eu não a conhecia pessoalmente, embora soubesse da força. Quando eu vi aquela mulher poderosa… O Carlos estava no carro do lado de fora, a gente já dentro da casa dela esperando. Ela passou duas horas se maquiando. A única coisa que ela pediu foi que a gente pagasse um maquiador pra ela. Quando ela apareceu com a cara pintada à maneira das dançarinas do Fela, achei aquilo sensacional. Os dois se abraçaram e já começaram a chorar. O Carlos, inclusive, chorou mais do que ela. Diante desse choro, ela conduziu e falou: “vamos! Vamos pra lá”. Pegou ele e arrastou. Já fui me encantando com essa força e capacidade de condução dela. E a conversa deles pegou fogo.

Por que apenas uma das esposas de Fela é entrevistada?
O filme tem 90 minutos, não cabia tanta entrevista. Eu também não queria ficar fazendo picadinho, tipo reportagem de tevê. Eu queria longos depoimentos, intimidade. Também não foi fácil. O Fela gerou renda pras pessoas, algumas ficam na expectativa de dinheiro. Não é fácil marcar essas entrevistas. No momento que falamos com a Najite Mukoro, percebi a riqueza da entrevista e fiquei tranquilo. Percebi que não tinha a necessidade de buscar outras entrevistas.

Teve alguma entrevista que foi mais complicada nesse sentido?
Até teve, mas não quero falar porque fica meio fofoca, meio mágoa. Uma dificuldade grande veio do governo da Nigéria. Eu não podia ir com a minha equipe pra lá. Perdi muito dinheiro. Nós fizemos algumas filmagens em Paris e depois iríamos direto pra Lagos (em 2016). Eu já tinha comprado as passagens pra equipe inteira, deixado os passaportes na embaixada da Nigéria em Brasília por dois meses, e dois dias antes da viagem, me avisaram que não iam me dar o visto. Na hora que eu for prestar contas com a Ancine, podem me perturbar por causa disso. Eu não só perdi a passagem, como eu tive que pagar uma multa pra poder remarcar o voo e voltar de Paris pro Brasil. Quando eu finalmente consegui ir à Nigéria (em 2017), fomos somente eu e o Carlos, sem minha equipe – eu tive que gravar com uma equipe local, que eu não conhecia, foi bem mais complicado. Deu tudo certo no final, mas o governo da Nigéria dificultou muito. E lá em Lagos, no meu dia de descanso, quando saí pra passear, fui preso por um policial corrupto que queria me extorquir. Quando me recusei a dar bola pra ele, fui pra cadeia. Se não fosse a intervenção de um antigo produtor de cinema, que chamou o presidente do sindicato dos atores pra ir na delegacia me resgatar, eu poderia ter ficado vários dias preso. Me prenderam às nove da manhã e me soltaram às quatro da tarde.

Na primeira tentativa, o governo da Nigéria recusou os vistos sob qual justificativa?
Eles disseram que a Glória Maria, da Globo, foi à Nigéria fazer uma reportagem pro Fantástico e falou mal do país. A partir daí, eles decidiram não permitir a entrada de jornalistas e cineastas brasileiros.

Você acha que pode ter a ver com o Fela ainda ser um assunto desagradável para o governo?
É óbvio. E também é uma atitude autoritária. Isso é coisa de ditadura, não é?

Com certeza. Aliás, após a sessão no último domingo, você fez um comentário sobre como a obra de Fela conversa com o Brasil de hoje. Qual é exatamente essa relação, no seu ponto de vista?
Está diretamente relacionado com o que aconteceu no último domingo, no Rio de Janeiro: o assassinato de um músico, no carro com a família, que levou 80 tiros dos militares. A mulher sai desesperada e eles ainda tiram sarro da cara dela. Não respeitam pretos e pobres, consideram o brasileiro comum e negro uma ameaça. Fela lutava contra isso e foi extremamente punido por conta de uma música (“Zombie”, 1975) em que ele fala exatamente desse descontrole dos militares, que fazem esse tipo de barbaridades. Fela, ao comentar a sociedade nigeriana, é como se estivesse comentando o Brasil.

Sua obra sempre refletiu sobre o racismo e parece que a gente não progride nessa discussão. Você ainda tem esperança que o Brasil um dia possa virar essa página?
Acho que o racismo ainda estará em foco na história do mundo durante muito tempo. Mas eu acho que o Brasil vai chegar em um determinado momento que isso será um problema menor – não um problema estruturante como é hoje. Ainda vamos levar muito tempo, porque a sociedade brasileira se recusa a enfrentar o racismo e leva vantagem pela desigualdade gerada pelo racismo. Tem muita gente que leva vantagem com isso. Você, como classe média, tem uma empregada doméstica e paga metade ou o dobro do que você gasta pra comer com a sua mulher em um restaurante no final de semana, isso é um privilégio. O racismo não é só uma questão de educação, é uma questão de manutenção dos privilégios. Por isso, acho que é uma luta muita dura. Estamos vivendo um dos piores momentos nesse sentido, porém acredito que seja uma passagem. Em um determinado momento, a sociedade vai perceber o erro que está cometendo ao alimentar esse monstro. Não sei quanto tempo isso vai demorar, se serão três ou dez anos, mas em algum momento cai por terra. Ainda teremos muita luta pela frente.

Qual é o papel da arte nessa luta?
Eu acho que a gente dá uma modesta contribuição provocando esse tipo de debate e reflexão. A gente faz parte de uma onda que ajuda as pessoas, no momento em que elas vão se divertir, sair com uma reflexão que pode ajudá-las a compreender melhor a sociedade de hoje e os caminhos pro futuro. Eu sonho com a arte do mesmo jeito que o Fela.

Você e Carlos falaram muito, depois da sessão, sobre a importância de se fazer um filme que não se limitasse a retratar um herói do gueto. Por que essa preocupação?
A gente queria evitar a folclorização do Fela. Ele é muito folclorizado. Esse Fela que o Carlos entendia e é o mais real é um artista preocupado com os destinos da África, um cara pan-africanista, politizado, a música dele é exatamente uma explosão por conta dessa consciência que ele passa a ter a partir do contato com a Sandra e com o movimento black power dos Estados Unidos. É isso que faz ele dar o salto.

Você ressalta também a importância de não esconder as sombras do personagem, né?
É. Eu sou contra e me desagrada profundamente toda biografia que é só celebrativa. Eu saio desconfiado de que fui enganado, que não tive acesso ao personagem. Por natureza, como cineasta e artista, sou contra essa mania escapista que tem o cinema brasileiro em suas biografias. Quando eu enfrentei o Fela, já sabia de antemão que eu não ia ceder e cair nessa esparrela de fazer uma coisa celebrativa e bonitinha. Todos nós temos o nosso lado de sombras e as forças negativas dentro de nós mesmos. E se nós não nos preocuparmos com isso, acabamos sendo tomados por esse lado. Cada um enfrenta isso de uma forma diferente. Não existe um ser humano puro, bonzinho, sem inveja, sem ressentimento, sem mágoas, sem ambição… Quem não tem o cuidado de perceber que tem isso dentro de si e que tem de lidar com isso, pode ser tomado por esse lado de sombras. O Fela foi tomado por isso por motivos muito pesados: ele foi violentado, preso dezenas ou centenas de vezes, foi espancado, viu a mãe ser assassinada e jogada do terceiro andar da casa onde ele morava. Eu estaria fazendo a mesma bobagem que eu vejo outros cineastas fazendo, se eu não entrasse nesse lado de sombras do Fela.

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