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Lee Morgan, 80 anos

Ramiro Zwetsch

10/07/2018 10h38

Tudo aconteceu muito cedo na carreira de Lee Morgan. Aos 18 anos, ele já integrava a banda de Dizzy Gillespie – o que era um sonho para qualquer músico iniciante de jazz nos anos 50. Em 1972, em plena ascensão, morreu aos 33 anos vítima de tiros disparados por sua mulher, Helen Morgan. Desde então, especula-se até onde o trompetista poderia chegar se tivesse vivido mais. Nesta terça 10 de julho de 2018, ele completaria 80 anos e a Radiola Urbana conversou com dois trompetistas brasileiros para dimensionar sua importância e fazer esse exercício de imaginação para entender qual seria seu status caso tivesse tido a chance de criar por mais alguns anos. Daniel D’Alcantara (43 anos) e Guilherme Mendonça (o Guizado, 45 anos) também contribuíram com a playlist que acompanha essa reportagem: duas horas e quarenta minutos com algumas das gravações mais inspiradas de Lee Morgan para o leitor e ouvinte se deleitar com o som peculiar de um dos trompetes mais autênticos do jazz.

“Na minha opinião, o Lee Morgan foi uma explosão de musicalidade, criatividade e ousadia. Ele tinha uma sonoridade quente com uma articulação clara e afiada, tinha uma confiança rítmica e segurança de suas ideias muito acima da média pra sua idade e tudo isso mesclado com lirismo e conexão de fraseado que tinha forte influência de Clifford Brown e Fats Navarro”, observa D’Alcantara. “Seu estilo de tocar era brilhante, Lee Morgan tinha uma base técnica muito sólida. Além disso, seu talento era fora do comum. Seus solos eram muito ricos em expressividade – quanta emoção e drama! Sua sonoridade era incendiária, seu fraseado vinha da escola do bebop, porém com um suingue um pouco diferente, mais seco, mais direto, um pouco mais sombrio talvez, tanto que tal estilo passou a ser chamado de hardbop”, emenda Guizado.

O talento do prodígio logo chamou atenção dos gigantes do jazz. Lee Morgan toca em “Blue Train” (1957), um dos discos mais emblemáticos de John Coltrane na década de 50, e integra a banda do baterista Art Blakey – reconhecido berço de muitos talentos – a partir de 1958. Grava seu primeiro disco aos 16 anos, “Lee Morgan Indeed”, pela Blue Note – gravadora que lançaria um total de 25 álbuns do músico até 1971. “Foi o trompetista que mais me influenciou pois foi muito efetivo no estilo hardbop e gravou muita coisa boa neste período. Destaque para os discos de Art Blakey and the Jazz Messengers (“Moanin’”, de 1958; “At the Jazz Corner of the World”, de 1959; e “Like Someone um Love”, de 1960), John Coltrane (“Blue Train”), Wayne Shorter (“Night Dreamer”, de 1964) e seus próprios (“Candy”, de 1957; “Lee-Way”, de 1960; “The Sidewinder”, de 1963; “The Procrastinator” e “Standards”, ambos de 1967)”, comenta D’Alcantara. “Ele gravou muitos álbuns e todos, sem exceção, são muito bons. Era um músico que tinha muito estilo e isso se refletia tanto em seus solos como em suas composições. Acho que essa combinação fez de Lee Morgan um musico de uma expressividade tremenda e, dessa forma, ele era capaz de estabelecer vínculos de comunicação com qualquer tipo de público, todos podem sentir que Lee está contando uma história”, acrescenta Guizado.

A morte de Lee Morgan em 1972 interrompe uma ascensão iniciada após ele ter conhecido o fundo do poço. Sua relação com drogas provocou um período de ostracismo nos anos 60. Foi o casamento com Helen Morgan em 1965 que o levantou e o recolocou nos trilhos. Durante o intervalo de um show no clube nova-iorquino Slugs, em fevereiro de 1972, ela o encontrou com uma amante e disparou o tiro que matou o músico. Essa história é contada no documentário “I Called Him Morgan”, de Kasper Collin, disponível no Netflix. O trompetista não viveu, portanto, os anos 70 – período que marca a fase elétrica de Miles Davis e sua aproximação com um público mais jovem e roqueiro, algo que contribuiu para sua consagração não só como um gênio do jazz mas também como ícone pop. Como será que Lee Morgan teria encarado a década do flower power? Para qual caminho iria sua música? Poderia, talvez, ter a mesma estatura artística de Miles?

“Suas últimas gravações demonstram mudanças em termos de composição, novos ritmos e pulsações passam a ser explorados, assim como novas concepções harmônicas. Acredito que ele poderia ter feito muita coisa interessante, caminhando por possíveis hibridismos sonoros”, arrisca Guizado. “Acho que ele partiria para a fusão com estilos funk, rock, latin, free – ele já flertava com essas ideias em seus últimos discos. Na minha opinião, Morgan era melhor compositor e instrumentista, mas Miles Davis era mais inteligente artisticamente”, opina D’Alcantara. “Ambos vieram do bebop, mas foram mudando seus estilos de formas diferentes. Miles talvez tivesse mais requinte, uma certa elegância sombria; Lee Morgan tinha um som sujo, quente. O que fez de Miles um gigante do jazz era que, além de toda sua genialidade, ele sabia se promover muito bem, era duro nas negociações e sempre teve muita autonomia artística. Lee Morgan estava começando a se libertar de uma vida bastante dura, o que pode ter limitado sua expansão no sentido de administração da carreira”, conclui Guizado.

Sobre o autor

Ramiro Zwetsch é jornalista, DJ residente da festa Entrópica, sócio da Patuá Discos e criador do site Radiola Urbana. Foi editor-chefe dos programas "Manos e Minas" e "Metrópolis", repórter de música do Jornal da Tarde e colaborou para "Ilustrada", "Caderno 2", “Bravo!”, “Rolling Stone”, “Bizz”, “Carta Capital”, “Select” entre outros.

Sobre o blog

Divagações e reflexões sobre as maravilhas contemporâneas e pérolas negras da música Brasil adentro e mundo afora.