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Sister Carol e o empoderamento feminino no reggae

Ramiro Zwetsch

20/06/2018 12h36

A música jamaicana é impressionante. Quanto mais se pesquisa, mais se descobre e tudo indica que nunca chegaremos ao fundo desse baú. A exposição "Jamaica, Jamaica" – que fica em cartaz até agosto no Sesc 24 de Maio – nos oferece um rico panorama desta produção com uma memorabília de cair o queixo de qualquer amante do reggae: instrumentos, equipamentos de estúdio e figurinos originais e um acervo fotográfico e de áudio que exigem mais de uma visita de quem quiser apreciar o conteúdo completo.

Só uma crítica é possível: há pouco ou nenhum destaque às personagens femininas da cena. Nomes como Marcia Griffiths, Sister Nancy, Hortense Ellis, Jennifer Lara, Althea e Donna são coadjuvantes em um território em que Bob Marley, Peter Tosh, Lee Perry, King Tubby e Coxsone Dodd são – merecidamente, diga-se – protagonistas. A questão vai além da curadoria: o ambiente machista da ilha (e do mundo inteiro) provavelmente ofuscou o talento de muitas mulheres e sua relevância ficou diminuída diante da predominância masculina. É o tal do machismo estrutural tão falado, que tem raízes nos tempos mais remotos e gera consequências como essa hoje em dia.

A programação paralela da mostra compensa essa lacuna com um cuidado especial. A abertura da exposição teve discotecagem do coletivo de mulheres Feminine Hi-Fi e nessa quinta recebe a cantora e atriz Sister Carol (também conhecida como Black Cinderella) para um bate-papo sobre, entre outras coisas, seu engajamento nesta batalha de se fazer ouvir e conquistar respeito como uma mulher no ambiente do reggae. Na mesma noite, ela se apresenta na festa Fresh, no Susi in Dub. Ela tem 59 anos e a voz que embala hits como "Black Man Time" e "Oh Jah Jah". Nascida em Kingston, foi criada no bairro nova-iorquino do Brooklin e criou sua própria gravadora, Black Cinderella, nos anos 80.

Em São Paulo desde ontem, ela nem bem chegou e já foi ao estúdio Ekord (em Perdizes) para gravar em um projeto que envolve quatro cantoras brasileiras: Laylah, Lei Di Dai, Mis Ivy e Shirley Casa Verde. "Por respeito, vou chamá-la de 'Mamma Carol' agora. Ela se colocou assim pra gente. Senti ela se estabelecer na relação como matriarca e com muito carinho. Entre os ensinamentos desta noite, guardei as alterações que ela aplica em algumas palavras: 'history' vira 'herstory', 'humanity' vira 'womenity'", diz Laylah, sobre o recurso da jamaicana em introduzir o feminino em certas palavras em inglês. "Ela está na ponta da pirâmide do reggae e ter uma mulher nessa posição é referência para todas".

Laylah é integrante do Feminine Hi-Fi e as gravações são para o terceiro single do selo homônimo do coletivo. Andrea Lovesteady, Dani Pimenta e Lys Ventura completam o time. A cena de reggae em São Paulo, atualmente, tem centenas de sistemas de som que se propõem a levar a música jamaicana para as ruas com sua própria aparelhagem e sob inspiração dos "soundsytems" jamaicanos. O primeiro formado por mulheres, o Sound Sisters, surgiu em 2010, em São Carlos. "Sempre tivemos o sonho de ter um próprio sistema de som, a vontade de ter essa independência pra tocar, produzir eventos e não depender de convites. Sentimos falta dessa representatividade feminina e naturalmente a ideia evoluiu", conta a DJ Tuti, parceira de Lioness Pê no projeto.

A presença de Sister Carol na cidade é fundamental para fomentar o avanço feminino nos sistemas de som de Sampa. O empoderamento aliado ao talento inspira. "Ela traz uma soma do sangue jamaicano com a vivência nos guetos norte-americanos, que traz uma malandragem muito especial na levada e na lírica. Suas letras são densas, com temáticas de consciência", diz Laylah. "Ela abriu os caminhos para muitas mulheres no reggae, sua música traz herança cultural e consciência social. Representa a força feminina e a capacidade de enfrentar as dificuldades – não há como negar que mulheres lidam com desafios nesse meio", completa Tuti.

Vai lá:
Rasta Fêmea – bate-papo com Sister Carol

Quando: 21 de junho, às 19h30
Onde: Sesc 24 de Maio – Rua 24 de Maio, 109
Quanto: de graça

Fresh Dancehall apresenta Sister Carol
Quando: 21 de junho, às 23h
Onde: Susi in Dub – Rua das Figueiras, 611
Quanto: R$ 25 (antecipado) e R$ 40 (porta)

Sobre o autor

Ramiro Zwetsch é jornalista, DJ residente da festa Entrópica, sócio da Patuá Discos e criador do site Radiola Urbana. Foi editor-chefe dos programas "Manos e Minas" e "Metrópolis", repórter de música do Jornal da Tarde e colaborou para "Ilustrada", "Caderno 2", “Bravo!”, “Rolling Stone”, “Bizz”, “Carta Capital”, “Select” entre outros.

Sobre o blog

Divagações e reflexões sobre as maravilhas contemporâneas e pérolas negras da música Brasil adentro e mundo afora.