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Palavra de preto: o novo disco do Last Poets e o sarau Black Poetry

Ramiro Zwetsch

30/05/2018 09h59

A palavra tem cor, alma e ritmo. O discurso tem sangue nos olhos e punhos cerrados para o alto. As vozes são de Abiodun Oyewole e Umar Bin Hassan Hassan, dois integrantes remanescentes da entidade Last Poets – que lançou recentemente o álbum “Understand What Black Is”, após 21 anos sem nenhum material inédito. Referência na arte do “spoken word” (performance literária, baseada na declamação de poesia), o grupo foi formado em 19 de maio de 1968 (aniversário de Malcom X) em Nova Iorque e ostenta uma discografia de excelência: “The Last Poets” (1970), “Right On” (1970) e “This is Madness” (1971) formam uma trinca de estreia de grande influência para o hip hop e que anunciava um jeito novo de misturar música, poesia, afrocentrismo e uma mensagem de contestação. Acompanhados exclusivamente de percussão, os poetas destilavam versos de raiva diante do racismo e exaltação da negritude.

O novo álbum traz um elemento novo: a poesia é acompanhado por bases de reggae – cortesia do produtor britânico Prince Fatty – e a novidade confere um bem-vindo frescor ao trabalho destes senhores da batalha lírica. “Eu adorei o disco. O fato dos autores terem o que dizer, da forma que dizem, é algo a ser celebrado”, observa o poeta, compositor e jornalista Rodrigo Carneiro. “Amante da música jamaicana, achei um espetáculo. E algo também muito natural, apropriado. Os fundamentos do hip hop, do qual os Last Poets são precursores, da cultura do DJ, os aspectos da moderna música eletrônica vêm todos da Jamaica. A audição do álbum me remeteu ao dub poetry cometido por Linton Kwesi Johnson, que é outro gênio.”

Ele é um dos oradores no projeto Black Poetry, que acontece desde 2016 em São Paulo e reverbera em alto e bom som o legado dos Last Poets. Nessa sexta 01/06, na Balsa, acontece uma edição deste sarau que destaca a interpretação de autores negros (escritores, músicos, pensadores) e tem direção de Eduardo Beu. O microfone estará nas mãos de Carneiro, da escritora Natasha Felix e do ator e músico Caio Juliano. A experiência costuma arrebatar: os versos como os do norte-americano Langston Hughes, do senegalês Léopold Sédar Senghor ou da brasileira Stela do Patrocínio ganham potência na voz dos intérpretes e sob acompanhamento de trilha musical inspirada – que inclui Miriam Makeba, Billie Holiday, Duke Ellington, John Coltrane, Alice Coltrane, Carl Craig e outros.

“Os Last Poets são de uma importância vital para o ‘spoken word’. Um dos nomes mais contundentes do ativismo negro. Eles traziam a oralidade africana ao contexto da megalópole. Eram jovens negros metropolitanos tendo as dores e as delícias da revolução comportamental dos anos 60 e 70 como tema de narrativas poéticas e sonoridade percussiva”, diz Carneiro. “Havia igualdade racial na revolução? As demandas das minorias estavam realmente na pauta revolucionária? Quais os embates dentro da própria comunidade negra? Eram esses alguns dos tópicos das músicas. Troço extremamente sofisticado e questionador.”

Black Poetry e Last Poets convergem em uma insuportável necessidade de ainda refletir sobre a realidade de extermínio do povo negro no Brasil, nos Estados Unidos e no mundo inteiro. É palavra de preto. Temos que ouvir.

Vai lá:
Black Poetry
Quando: 1 de junho, das 19h às 23h
Onde: Balsa – R. Capitão Salomão, 26, Centro
Quanto: de R$ 25 a R$ 32

Sobre o autor

Ramiro Zwetsch é jornalista, DJ residente da festa Entrópica, sócio da Patuá Discos e criador do site Radiola Urbana. Foi editor-chefe dos programas "Manos e Minas" e "Metrópolis", repórter de música do Jornal da Tarde e colaborou para "Ilustrada", "Caderno 2", “Bravo!”, “Rolling Stone”, “Bizz”, “Carta Capital”, “Select” entre outros.

Sobre o blog

Divagações e reflexões sobre as maravilhas contemporâneas e pérolas negras da música Brasil adentro e mundo afora.

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