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Quem foi Mestre Moa do Katendê

Ramiro Zwetsch

10/10/2018 11h24

"O lance que mais machuca é que quando morre um griô, não é uma mulher ou homem que morrem: é um pouco da cultura que se esvai. Ainda bem que ele rodou e ensinou. Embora eu tenha certeza que ele ainda tivesse muito a nos ensinar, sei que a essência do que ele tinha foi passada pra muita gente. E nesse ponto, num momento como esse de questionamento e de fratura do nosso povo, o assassinato de um griô é de uma simbologia assombrosa. É como se os que discordam estivessem dizendo: 'eu prefiro sua morte a entender seu ponto de vista, eu prefiro sua morte a aceitar sua pessoa'… Em pleno século XXI, parece um pesadelo."

As palavras do músico Otto Nascarella (de nome artístico Nasca) dimensionam a gravidade do que significa a morte do Mestre Moa do Katendê, que morreu com 12 facadas desferidas pelas costas em um bar de Salvador, após uma discussão política na qual declarou voto em Fernando Haddad, candidato do PT, para a presidência do Brasil. O barbeiro Paulo Sérgio Ferreira de Santana, eleitor de Jair Bolsonaro (PSL), respondeu aos argumentos com a lâmina de sua peixeira. Este texto não vai entrar nos detalhes do crime, mas sim na relevância do artista.

O griô é um porta-voz da tradição oral, responsável por transmitir e preservar conhecimentos da cultura. Embora não tenha gravado discos em seu nome, Moa do Katendê deixa um legado de realizações que ecoam na música baiana e do Brasil. "Moa é uma das nossas grandes influências relacionadas ao mundo dos afoxés, criador do Badauê, considerado um bloco com uma personalidade mais contemporânea.
É compositor de belíssimas canções em Ijexá (ritmo nigeriano e do candomblé baiano), que são referência para quem cultua este ritmo. Foi também um importante ativista cultural em sua comunidade, Dique Pequeno", exemplifica Letieres Leite, maestro da premiada Orkestra Rumpilezz, importante projeto de fusão dos ritmos afro-baianos com a linguagem jazzística.

Na MPB, Caetano Veloso talvez tenha sido quem mais amplificou a voz do artista. Em 1979, no disco "Cinema Transcendental", gravou e tornou mais conhecida uma das composições dele, "Badauê" (dos versos, "misteriosamente, o Baduê surgiu / sua expressão cultural, o povo aplaudiu") e fez referência também no clássico "Beleza Pura" (no trecho da letra que diz: "moço lindo do Badauê, beleza pura"). Já em 1981, no disco "Outras Palavras", o Badauê é lembrado também na música "Sim / Não". Na terça 09 de outubro, o canal do jornal O Globo no youtube publicou um depoimento de Caetano sobre o mestre e o tom de revolta remete ao histórico discurso do compositor em 1968 – quando levou uma sonora vaia durante a apresentação de "É Proibido Proibir", no Festival Internacional da Canção.

Os ensinamentos de Moa como mestre de capoeira, dançarino, líder de um bloco de afoxé e percussionista reverberam em vários artistas e gêneros. É uma tradição que se espalha na oralidade em cada aula e que seus alunos de diferentes gerações levam adiante em trabalhos diversos. "Não tem como minha obra não ter sido influenciada pelo mestre. Foi meu primeiro professor de música quando eu era aluno do colégio Severino Vieira e tocava na orquestra afro-brasileira da nossa querida Emília Biancardi, da qual ele era nosso instrutor e maestro no início dos anos 70", conta Letieres. "Pessoalmente, aprendi com ele o conceito orquestral da percussão afro-baiana e o gosto pelo caxixi, instrumento que toco até hoje". Ele tem uma composição chamada "Mestre Moa", já gravada para um disco que será lançado em breve com o Letieres Leite Quinteto. Abaixo, você confere uma versão gravada pelo Leandro Cabral Grupo.

Discípulo do Mestre Bobó, Moa começou a praticar capoeira no Dique Pequeno, onde nasceu e morreu. Mais tarde envolveu-se com o grupo Viva Brasil, da folclorista e pesquisadora Emília Biancardi. Antes de formar o Badauê em 1978, compôs para o renomado Ilê Ayê. "Quando o Badauê saiu pela primeira vez, os blocos estavam enfraquecidos. Ele fez uma mudança, juntando a contemporaneidade com a tradição, e os afoxés voltaram a ter força. E Moa seguia espalhando essa cultura por todo canto, dando aulas em diversos países da Europa", diz Nasca, que hospedou Moa em Londres, em 2011. O primeiro vídeo deste post pertence ao documentário em produção pela Kana Filmes, "Raiz Afro Mãe, o Afoxé do Mestre Moa". Pra encerrar esse texto, fique com essa bela composição do Mestre Suassuna, "Capoeira Está de Luto". Axé!

Sobre o autor

Ramiro Zwetsch é jornalista, DJ residente da festa Entrópica, sócio da Patuá Discos e criador do site Radiola Urbana. Foi editor-chefe dos programas "Manos e Minas" e "Metrópolis", repórter de música do Jornal da Tarde e colaborou para "Ilustrada", "Caderno 2", “Bravo!”, “Rolling Stone”, “Bizz”, “Carta Capital”, “Select” entre outros.

Sobre o blog

Divagações e reflexões sobre as maravilhas contemporâneas e pérolas negras da música Brasil adentro e mundo afora.